segunda-feira, 1 de setembro de 2008



Brindando o quinto momento do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER em sua 94° edição, após dicas para um planeta sustentável, escutamos a música: Vá morar com o diabo, na interpretação da cantora Cássia Eller.

O que você precisa saber para fazer um planeta melhor

Entenda porque é tão importante reduzir o consumo de três ítens imprescíndiveis nos dias de hoje: água, energia elétrica e combustíveis.


Água: Ela até cai do céu, mas é um recurso esgotável e raro em muitos lugares do mundo. Se, em apenas cinco minutos, você escovar os dentes com a torneira escancarada, 12 litros de água potável serão desperdiçados.


Energia elétrica: O consumo cada vez maior requer a construção de mais usinas hidrelétricas e mais florestas vão desaparecer para dar lugar a elas. O simples gesto de desligar as luzes dos ambientes, quando estiverem vazios, pode ajudar a evitar isso.


Combustíveis: A queima dos fósseis, como o diesel e a gasolina, é a maior responsável pela emissão de gases do aquecimento global. Segundo o urbanista e ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner, “nas grandes cidades são produzidos 75% de todo o CO2 jogado na atmosfera”. Pense nisso antes de entrar no carro só para ir à padaria da esquina.


Dica de Leitura



Nesta 94° edição oferecemos como dica de leitura: As viagens "Il Milione" de Marco Polo. Escrito por volta de 1.300, em plena Idade Média, As viagens é um dos relatos mais fascinantes da história. O livro é precursor da geografia moderna sobre os países da Ásia e serviu de guia a vários navegadores, inclusive a Cristovão Colombo.



Brindando o quarto momento do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER em sua 94° edição, após leitura da crônica: Ananias do professor Adroaldo Ribeiro Costa, escutamos a música: Saudosa Maloca com o conjunto musical Demônios da Garoa.



Brindando o terceiro momento do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER em sua 94° edição, após leitura do conto: O que é o prazer? da escritora Celeste Martinez, desfrutamos da música: Pela luz dos olhos teus com Miúcha e Tom Jobim

O que é o prazer?


"O único meio de fugir à tentação é ceder à tentação"
Oscar Wilde

Este conto é um brinde em louvor a uma espécie rara de borboleta, única no mundo:
Jhozi Iphitas, da família Papiliomidae (Makina, 2008)


Certa vez, um Tietê-de-coroa*, que estava pousado à sombra de frondosa jaqueira, sentindo a carícia do vento em suas plumagens, questionou sobre o prazer. Perguntava a si mesmo se cada sensação provocada pelo vento desinteressadamente em seu pequeno corpo poderia ser considerado como elemento de satisfação. Estava tão envolvido em seus pensamentos que cogitou em voz alta:

- O que é o prazer?

Foi aí que uma folha caindo naquele instante à superfície de um rio que passava perto, interviu:

- O prazer é um bem dos ímpetos!

E o rio ao receber a folha que caiu em seu corpo silenciosamente, prosseguiu:

-É um bem do acaso!

E o vento que a todos visita, soprando à superfície do rio, disse:

- O prazer é um sopro sem destino!

- Pode acometer a todos indiscriminadamente... acrescentou a libélula.

-Prazer. Prazer. Prazer. Repetiu o papagaio pousando na jaqueira.

- O prazer é uma desgraça – refletiu a terra

- Uma pequena semente que cresce debaixo das sombras e nunca frutifica, retorquiu uma planta recém-nascida.

-Ah! Suspirou uma borboleta da família das Papiliomidae.

E este suspirar que acumulava muito mais sensação que palavras, incomodou a terra.

- Você só sabe suspirar, caríssima borboleta?

-Não, senhora terra. Sei me embriagar da seiva e alimentar outras sementes. Ah! Voltou a suspirar a borboleta batendo suas coloridas asas.

- Você não passa de um inseto desatento. Pousa aqui e acolá. Estamos falando do prazer e você só sabe dizer: Ah! Ah!

- Quem aqui não entende de prazer é vossa senhoria, dizendo que o prazer é uma desgraça.

- E tenho razão com o que digo. O prazer não enxerga nada a sua volta. Invade os sentidos, sufoca a razão e quando menos se espera atraí todas as desgraças.

-Ha! ha! ha!, debochou o rio.

- De que rir, senhor dono das águas? Perguntou a terra.

- Rio de tua ingenuidade. O prazer assumi a si mesmo. Por isso é assim designado. E a senhora não me diga que não sente prazer ao receber a semente dentro do teu corpo?

- Ora, meu caro senhor dono das águas, estamos falando do prazer despretensioso. O que ocorre no interior do meu corpo são fenômenos naturais. O prazer é um estímulo externo.

-Provocado por outros estímulos externos a nós. A semente em tuas entranhas é um estimulo do prazer. Você não sente? Prosseguiu o rio.

-Sentir? Lógico que sinto mais isto não me desconcerta, não cria tumultos, não me desespera.

-Desesperar? Quem disse que o prazer desespera? Alguém aqui falou em desespero?

-Não! Não! Não! Repetiu em coro, a jaqueira, o Tietê-de-coroa, o vento, a folha, o papagaio, a borboleta e a libélula.

-Parem com esta algazarra, gritou a terra. Parece que todos estão contra mim.

-Que é isto senhora terra? Não é nada disto. Estamos espairecendo prazerosamente o prazer que sentimos. Relaxa!

-Relaxa. Relaxa. Relaxa. Repetiu insistentemente o papagaio e partiu.

-Ah! Ah! Ah! Suspirou a borboleta e vôo.E enquanto o vento mais uma vez sacudia os galhos da frondosa jaqueira, colhendo-lhe algumas folhas... o que afugentou o pequeno Tietê-de-coroa, que ao fugir foi dizendo:

- O que é o prazer?

As folhas arrancadas da jaqueira ao caírem na superfície do rio repetiram:

- O prazer é um bem dos ímpetos!

E o rio para demonstrar essa sensação, criou muitos círculos que se agigantaram até sutilmente desaparecerem de sua superfície.Foi-se o vento. Calou-se o rio. Desapareceu o Tietê-de-coroa, a libélula, o papagaio. Adormeceu a planta recém-nascida. E todas as prematuras folhas foram arrastadas pelas águas do rio. E a jaqueira, como sábia que é, para não alimentar o mau humor da terra, resolveu tirar uma soneca.Ficou a terra solitária, refletindo as palavras do pequeno passarinho:

- O que é o prazer?

Foi aí, neste momento, que a terra sentiu a presença da garoa que começava a lhe salpicar o ventre, caindo lentamente entre a paz do entardecer e a presença de algumas estrelas pálidas que brilhavam longe. Se aquela sensação que circundava a escuridão tão próxima, poderia ser considerada prazer, então que permanecesse até quando durasse a noite. E se esse tal prazer que não anuncia a hora para instalar-se e que chega imperativamente fazendo-nos crer na eternidade... Então que seja! Que se revele! Que permaneça até o penúltimo sentir, revelado na pronuncia da última palavra.


*O Tietê-de-coroa ou Calyptura cristata (Vieillot, 1818), da Família Cotingidae, é uma espécie de pássaro, da fauna brasileira, provavelmente extinto.

Celeste Martinez- escritora
Brindando o segundo momento do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER em sua 94° edição, contextualizando a conto: A onça e o bode, do escritor brasileiro Sílvio Romero, escutamos a música: Banquete de Signos, da cantora pernambucana Elba Ramalho.

CONTO

O conto é a forma narrativa, em prosa, de menor extensão (no sentido estrito de tamanho), ainda que contenha os mesmos componentes do romance.
"Conselhos" para se escrever um ótimo conto.

1-Prender o interesse do leitor; evitar ser chato. Pense em Aristóteles, para quem a catarse, enquanto experiência vivida pelo espectador ou ouvinte, é condição fundamental para definir a qualidade de uma obra.

2-Usar, se possível, frases curtas. A clareza vem do cuidado com a estruturação da frase: as intercalações excessivas prejudicam a compreensão da idéia. Pense em Barthes: “A narrativa é uma "grande frase", como toda a frase constitutiva é, de certa forma, o esboço de uma pequena narrativa (Introdução à análise da narrativa).

3-Capítulos e parágrafos curtos, para o leitor poder respirar.Evitar muitas personagens, descrições longas, rebuscamentos, adjetivações, clichês, repetir palavras.

4-Trama/enredo/tema ou estilo, original. Pense em Ricardo Piglia: “Pode-se programar a trama, os personagens, as situações, conhecer o desenlace e o começo, mas o tom em que se vai contar a história é obra de inspiração. Nisso consiste o talento de um narrador”, (O laboratório do escritor).

5-Se possível usar ironia, humor, graça e ser verossímil. Ser verossímil é importante, mas não devemos confundir verossimilhança com verdade; a história não tem de ser obrigatoriamente verdadeira, mas parecer que o é, mesmo assim sua importância é discutível. Segundo Álvaro Lins, Graciliano Ramos tem como “defeito” justamente a inverossimilhança que, de acordo com o crítico, é mais “visível” em "Vidas secas" e "São Bernardo", dois clássicos insuspeitos. No "Vidas secas" esse “defeito” estaria no discurso das personagens (discurso indireto livre), pois tal recurso teria provocado um excesso de introspecção das personagens, tão rústicas e primárias (até Baleia, a cadela do romance, tem seu “monólogo interior”). No "São Bernardo" o “problema” estaria no fato de um homem rústico, como Paulo Honório, construir uma narrativa tão perfeita em termos literários. Conta-se que uma vez Matisse mostrou a uma senhora um quadro em que havia pintado uma mulher nua; sua visitante retrucou: “Mas uma mulher nua não é assim”. E Matisse: “Não é uma mulher, minha senhora, é uma pintura”. Será que na sua análise em busca do "perfeito", Álvaro Lins (que tinha Graciliano em alta conta) não teria percebido que Paulo Honório não é um homem, mas uma pintura?

6-Ler, de preferência, os clássicos. Não se é escritor sem ser leitor. Pense em Sartre: “Mas a operação de escrever implica a de ler... e esses dois atos conexos necessitam de dois agentes distintos. É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito”. (op. cit.) Pense também em Faulkner: ler, ler, ler, ler, ler...Em "Escritores em ação", Georges de Simenon (1903-1989) dá a “fórmula” para se escrever uma boa prosa: “Corte tudo que for literário demais; adjetivos e advérbios e todas as palavras que estão lá só para causar efeito. Escrever é cortar. Escrever não é uma profissão, mas uma vocação para a infelicidade.
Fonte: Wikipédia

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, nasceu em Vila do Lagarto em 21 de abril de 1851 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 18 de junho de 1914. Foi crítico literário, ensaista, poeta, filósofo, professor e político brasileiro. Apaixonado pela cultura popular, se dedicou na procura e publicação de poemas, canções e histórias da tradição folclórica brasileira. Ele recolhia os contos e as poesias que encontrava, registrava-os por escrito e publicava-os em livros que puseram ao alcance de todoos o que era conhecido aprenas pelos moradores de algumas regiões do Brasil. Estes livros se chamam: "Cantos Populares do Brasil (1883) e Contos Populares do Brasil (1885) onde consta o conto: "A onça e o Bode".

A ONÇA E O BODE

Uma vez a onça quis fazer uma casa; foi a um lugar, roçou mato para ali fazer a sua casa. O bode, que também andava com vontade de fazer uma casa, foi procurar um lugar, e, chegando no que a onça tinha roçado, disse: "Bravo! que belo lugar para levantar a minha casa!" O bode cortou logo uma forquilhas e infincou naquele lugar, e foi-se embora. No dia seguinte a onça foi chegando, e vendo as forquilhas infincadas, disse: "Oh! quem me está ajudando?! Bravo, é Deus que está me ajudando!" Botou logo as travessas nas forquilhas, e a cumeeira, e foi-se. O bode, quando veio de novo, admirou-se e disse: "Oh! quem está me ajudando?! É Deus que está me protegendo" Botou logo os caibros na casa, e foi-se. Vindo a onça, ainda mais se espantou, e botou as ripas e os enchimentos e retirou-se. O bode veio, e envarou a casa e foi-se. A onça veio e encobriu. O bode veio e tapou. Assim foram, cada um por sua vez, e aprontaram a casa. Acabada ela, veio a onça, fez a sua cama, e meteu-se dentro. Logo depois chegou o bode, e, vendo a outra, disse: "Não, amiga, esta é minha, porque fui eu que infinquei as forquilhas, botei os caibros, envarei, e tapei" - "Não amigo, respondeu a onça, a casa é minha, porque fui eu que rocei o lugar, botei as travessas, a cumeeira, as ripas, os enchimentos, e o sapê".
Depois de alguma questão, a onça, que estava com vontade de comer o bode, disse: "Mas não haja briga, amigo bode, nós dois podemos ficar morando na casa". O bode aceitou, mas com muito medo. O bode armou a sua rede bem longe do jirau da onça. No outro dia a onça disse: "Amigo bode, quando você me ver frangir o couro da testa, eu estou com raiva, tome sentido!" - Eu, amigo onça, quando você ver balançar as minhas barbinhas ali nas goteiras e dar um espirro, você fuja, que eu não estou de caçoada". Depois a onça saiu, dizendo que ia buscar de comer. Lá, por longe de casa, pegou um grande bode, e para fazer medo ao seu companheiro, matou-o, e entrou com ele pela casa adentro. Atirou-o no chão e disse: " Está, amigo bode, esfole e trate para nós comer". O bode, quando viu aquilo, disse consigo: "Quando este, que era grande, você matou, quanto mais a mim!" No outro dia ele disse à onça: " Agora, amiga onça, quem vai buscar de coemr sou eu" E largou-se. Chegando longe, avistou uma onça bem grande e gorda, disfarçou e pôs-se a tirar cipós no mato. A onça veio chegando, e vendo aquilo, disse: "Amigo bode, para que tanto cipó?" - Fum! Para quê? O negócio é sério, trate de si... O mundo está para se acabar, e é com dilúvio..." - " O que está dizendo, amigo bode? - " É verdade; e você, se quiser escapar, venha se amarrar, que eu já me vou". A onça foi, e escolheu um pau bem alto e grosso, e pediu ao bode para que a amarrasse. O bode enlinhou-a perfeitamente, e, quando a viu bem segura, meteu-lhe o cacete como terra, até matá-la. Depois arrastou-a, chegou em casa, largou-a no chão, dizendo: "Está; se quiser, esfole e trante".
A onça ficou espantada e com medo. Ambos os dois temiam um ao outro.
Num dia o bode pôs-se junto das biqueiras, tomando fresco; olhou para a onça e ela estava com o couro da testa frangio. Ele teve receio e abalou as barbas, e largou um espirro. A onça pulou do mundéu e largou na carreira, o bode também abriu o pano. Ainda hoje correm cada um para o seu lado.

Sílvio Romero

ARTES VISUAIS

Colhendo laranjas de João Werner
pintura digital vetorial
Nesta 94° edição o programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER, levou belas e saborosas laranjas ao estúdio da Rádio Clube de Valença, como pretexto da crônica: Tempos e Mudanças e ofertou ao ouvinte-leitor ALACAZUM, informações a respeito da laranja.

LARANJAS



A laranja é o fruto produzido pela laranjeira (Citrus x sinensis), uma árvore da família Rutaceae. A laranja é um fruto híbrido, criado na antiguidade a partir do cruzamento do pomelo com a tangerina.
A laranja doce foi trazida da China para a Europa no século XVI pelos portugueses. É por isso que as laranjas doces são denominadas "portuguesas" em vários países, especialmente nos Balcãs (por exemplo, laranja em grego é portokali e portakal em turco), em romeno é portocala e portogallo com diferentes grafias nos vários dialectos italianos.
A laranja é muito conhecida por ser fonte de vitamina C. A vitamina C é o nutriente mais importante da laranja. Duas laranjas por dia fornecem a quantidade de vitamina C de que o organismo precisa.
Fonte: Wikipédia


Brindando o primeiro momento do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER em sua 94° edição, contextualizando a crônica: Tempos e mudanças do professor Adroaldo Ribeiro Costa, escutamos a música: Morena Tropicana do compositor e cantor brasileiro Alceu Valença.

CRÔNICA

A palavra crônica deriva do Latim chronica que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica (a narração de histórias segundo a ordem em que se sucedem no tempo). Era, portanto, um breve registro de eventos. No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. Ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats, publicado em Paris

Em resumo, podemos determinar cinco pontos:

1-Narração histórica pela ordem do tempo em que se deram os fatos.
2-Seção ou artigo especial sobre literatura, assuntos científicos, esporte etc., em jornal ou outro periódico.
3-Pequeno conto baseado em algo do cotidiano.
4-Normalmente possuiu uma crítica indireta.
5-Muitas vezes a crônica vem escrita em tom humorístico. Exemplos deste tipo de crônica são Fernando Sabino, Millôr Fernandes, Leon Eliachar..



Adroaldo Ribeiro Costa, diplomado Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1936 pela Faculdade de Direito da Bahia. Educador, jornalista, cronista, radialista bahiano. Criador da "Hora da Criança". Iniciado como um programa de rádio artístico e pedagógico voltado para os pais, professores e, sobretudo, para as crianças, e levada ao ar aos domingos pela manhã através da PRA 4 - Rádio Sociedade da Bahia, dos Diários e Emissoras Associados- sob a chancela da Secretaria de Educação, para que ficasse inequívoco o seu intuito pedagógico, a nova atividade empolgou-o completamente, unindo, num mesmo objetivo, o educador e o comunicador do grande público

TEMPOS E MUDANÇAS

Pôs o dedo em riste e intimou-me:
- Escreva sobre a mudança dos tempos!
- Que mudança? Que tempos?
- Ora!... O tempo que já vivemos e como mudou para o que estamos vivendo...
- Confesso que ainda não entendi bem o que você quer...
- Muito simples: nós vivíamos de um forma, estamos vivendo de outra. Certo?
- Certo.
- Pois escreva isto. E diga se a mudança foi para melhor ou para pior...
- Se você me desse algumas dicas, a coisa ficaria mais fácil.
- Olhe aqui: que é que você está vendo?
- O forro de seu casaco está quase todo solto...
- Exato. E é novo; ainda não sofreu a primeira lavagem. E o mesmo aconteceu com dois outros que mandei fazer recentemente...
- Mas então, seu alfaiate...
- Reclamei dele, naturalmente. E sabe o que ele me respondeu? Que não era sua a culpa: as linhas de agora é que já não valem mais nada!...
- É mesmo?
- Você está vendo. Agora você se lembra como era a linha "Clark"?
- Se me lembro? Minha mãe era quem costurava as nossas roupas e usava linha "Clark" 60...
- Isso mesmo! Havia número 40, número 50, número 60... E partiam assim?
- Partiam nada! Eram linhas de verdade, que duravam toda a vida das roupas!...
- Escreva isto!
- Já tomei nota. Que mais?
- A comida...
- Que é que tem?
- Antigamente não se saía a procurá-la, a comida vinha à procura da gente...
- Era assim mesmo: quando a gente se mudava, logo estavam a bater à porta o leiteiro, o padeiro, o açougueiro, a pedir freguesia. E mandavam entregar o produto a domicílio...
- E agora, como é que é?
- Agora é guerra: a gente tem que ir buscar o de comer e às vezes tem que pedir por favor para ser despachado...
- Escreva usti!
- Já tomei nota. Que mais?
- O cozido.
- Que é que tem o cozido?
- Estou falando do que é feito com verduras. Você gosta?
- Sou louco.
- E come frequentemente?
- Quem pode? Outro dia mandei fazer um, gastei cerca de cem cruzeiros...
- E antigamente, como era?
- Ah! Lá em Santo Amaro, as "ganhadeiras" vinham com aqueles balaios enormes, sentavam-se no batente do terraço e vendiam barato enquanto ferravam na prosa com minha mãe...
- E as "quebra"?
- Era mesmo! Elas enchiam a mão de quiabo e davam de quebra...
- Escreva isto!
-Já tomei nota. Que mais?
- As frutas. Onde estão as frutas?
- Que frutas?
- Mangas (rosa, espada, carlota), laranjas, limas, araçás (vermelho, branco, mirm), sapotis, jaboticabas, mangabas, oitis, fruta-pães, carambolas...
- Você está falando de algumas que até eu já nem me lembrava que existiam...
- Escreva isto e pergunte: para onde foram as frutas? Pergunte mais: as coisas mudaram para melhor ou para pior?
- Pergunto a você: qual a sua opinião?
Ele não respondeu. Suspirou apenas.



Adroaldo Ribeiro Costa
Rosângela Góes Figueiredo é professora. Nascida na cidade de Valença, Bahia. Ocupou, entre outros cargos, o de Secretária de Educação e, anos depois, o de Secretária de Cultura do município.

Nunca mais outra vez

Tripudiar não vá de mim
você!
Da minha voz sai sangue de velhas feridas
curtidas no sal deste mar interior.
Esse chão que piso é tão duro e
mais liso escorrego
Tenho medo...
Quanto tempo pra mim,
quando tenho um problema, eu queria
seu olhar...
suas mãos, meu colo acolhido compasso...
Do meu amor contido
nas esperas
um dia vou dizer o que pude guardar
sem me dar
Outra conta com saldo eu fazia
conta de mim
Que conto escrever?
Ao final, eu já sei ir mas
não dei pela falta
do tempo do como começar
outra ida...
Tripuidar da minha dor não quera
você!
Vá, que é hora,
pode bater a porta. Que importa?
Mas saia da frente,
meu nado é contra a corrente
Eu vou até o sobrevôo do vôo
da graça
até nunca mais outra vez.

Rosângela de Góes Figueiredo
Myriam Fraga
Escrito, poeta, jornalista e biográfa bahiana. Vinte livros publicados entre poesia e prosa. Pertence a academia de Letras da Bahia e ao Conselho de Cultura do Estado. Tem poemas traduzidos para o inglês, francês e alemão. É diretora da Casa Jorge Amado, em Salvador, Bahia, Brasil.

Trajetória

Eu,
que decepei a cabeça
de Holofernes.
E apascentava os leões
com vinhos de Marsala.
Eu,
que dormi com Pizarro
numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do Jaguar
e da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a sanguinaria
Isabel, a católica
Rainha destronada
inocente e assassina.
Hoje masco chicletes perfumados a menta
estrela absoluta dos filmes de pornô.

Myriam Fraga

sábado, 30 de agosto de 2008

Novamente as palavras

Alguém me perguntou: Haverá uma palavra? Palavras existem infinitamente. Evidente que existem palavras mas em determinados momentos melhor que não existissem. E isto me fez lembrar um fragmento do livro: Viagens de Gulliver

Modificando a linguagem

No departamento da linguística [...] outra equipe, ainda mais avançada, queria simplesmente extinguir as palavras para aumentar a vida média do homem. Cada vez que proferimos uma palavra, afirmavam seus membros, o ar sai dos pulmões e a vida se encurta. Com a extinção dos vocábulos, o homem deixaria de falar e viveria muito mais tempo. Como as palavras servem apenas para representar objetos, as pessoas passariam a levar numa bolsa reduzidas miniaturas dos elementos indispensáveis à conversação e as mostrariam simplesmente aos amigos, em vez de pronunciar palavras inúteis e encurtar tolamente a vida.

Esse projeto, exaustivamente discutido, apresentava ligeiro inconveniente: as pessoas ricas, donas de muitos objetos, precisariam carregar um número exagerado de miniaturas quando fossem visitar os amigos. O departamento de linguística, depois de várias reuniões, encontrou brilhante alternativa para o problema: ou os ricos contratariam empregados para carregar as miniaturas - o que não representaria qualquer problema- ou deixariam várias sacolas nas residências dos amigos mais íntimos, frequentadas, naturalmente, com mais regularidade.

Na opinião dos seus inventores, o novo sistema linguístico já teria sido adotado no mundo inteiro se houvesse mais empenho dos governadores, pois os objetos indispensáveis à vida são mais ou menos o mesmo em toda parte, e o moderno idioma acabaria certamente servindo de língua universal.


Swift, Jonathan, Viagens de Gulliver.
Trad. de Octavio Mendes Cajado. Rio de Janeiro, Ediouro, 1970, págs. 106- 108

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

PALAVRAS



Muito além de um reino óptico onde as palavras são alimento para o sonho, existe alguém. E próximo a cada um de nós existe um desejo pronto a eclodir. Ponho-me frente ao reluzente vidro polido e ora é a mim que identifico noutras personagens indefinidos.



O mundo foi reduzido a uma janela que jamais se fechará e nem devolverá Alice de sua aventura.


Tentáculos de ilusão acaricia-nos por inteiro. Dia e noite. Noite e dia. E a primeira e única lição é não cerrar os olhos. Entregar-se!


Sim, muito além da relatividade - tempo e espaço - existe: " uma longa conversa sem fim, que deverá durar mil e uma noites".

Nesse idílio em que palavras tomam formas oníricas, em que palavras, são lavras do idelével após pronunciadas... Aí neste reduto, não-identificado, perceptível apenas aos imperativos, forjam-se ILÍADAS E ODISSÉIAS. Mata-se o Minotauro. Liberta-se Helena. E Ulisses mais uma vez retorna para sua Penélope.


Não conheço os teus olhos, nem qual cor eles reluzem ao fixar uma palavra minha em teu espelho de cristal. Ambos conhecemos a visualidade do sistema e sua maneira binária em decodificar palavras em signos.

Lá se vai um pensamento em busca de repouso. Pousa em tua lembrança e lá faz silenciosa morada por alguns segundos. Após voa. Junta-se a nuvens - inter-conexões-. Conexões e des-conexões. Entre uma conexão e outra.


E bebo o verbo que de tua boca transborda imperativamente: Faça! Vá! Fique! Prossiga! Deseje!

Deixo-os ficar por alguns segundos à margem de minha abstração. Dissolvo-os! Coagulo-os! Destilo-os pormenorizadamente através de minhas retinas e emfim deslumbro a figura paradísiaca do bem estar que só Sherazade é capaz de produzir em sua terapia da palavra.

Este é o espaço, além do reino óptico, onde me encontro. Janela escancarada para o INSTANTE.

Antes do antes. O Agora! O Já! A ação do verbo em transformar o beijo em mais uma palavra e a palavra em desejo.

Sim, muito além do reino da relatividade, existe " uma longa conversa sem fim que deverá durar mil e uma noites"



Celeste Martinez - escritora

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

SENHORA AVAREZA


Quando penso nas inúmeras atrocidades provocadas pela guerra e outras tantas barbaridades resultado do egoismo humano, só me resta elaborar o pensamentos em metáforas poéticas. E isto me fez lembrar um dos meus poemas, criado lá pela década de 1990, como um filme para repassar os perfis humanos e suas indumentárias. Fazendo-me crer insistentemente que a ÚNICA INSTITUIÇÃO DEMOCRÁTICA É A MORTE.

SENHORA AVAREZA
APRESENTO-TE A MAGRA
FAMINTA DE CORPOS
FAMINTA DE VIDAS.

SENHORA PREPOTÊNCIA
APRESENTO-TE A SERVA DE SI MESMA
A CEIFADORA DE CABEÇAS.


SENHORES MAGNATAS DA MULTIMÍDIA
APRESENTO-VOS A VIÚVA DA VIDA
A DAMA DAS MADRUGADAS
DAS RAJADAS DE SÓIS.


SENHORES DONOS DA IGNORÂNCIA
APRESENTO-VOS A FRIA HERDEIRA DO NADA
FILHA DO ABSURDO E DA COERÊNCIA
HERDEIRA DE TODAS AS CERTEZAS.


SENHORES ESCRAVOS DA VAIDADE
APRESENTO-VOS A ESTÁTUA DA LIBERDADE
PREDADORA DOS BONS E DOS MAUS.


SENHORES FASCISTAS
APRESENTO-VOS A MAIS CRUEL GUERREIRA DE TODOS OS TEMPOS
A ÚNICA QUE SABE DE TODOS OS PLANOS DO INIMIGO
AQUELA QUE SEMPRE ESTÁ A POSTOS NAS TRINCHEIRAS
A ÚNICA QUE NÃO PRECISA DE BOMBAS E DE MIGS
A ÚNICA QUE NÃO PRECISA DE ESTRATÉGIAS, DE ARTIFÍCIOS.


SENHORES AFANADORES DOS COFRES PÚBLICOS
APRESENTO-VOS A LADINA DO SILÊNCIO
CONDENSADORA DAS HORAS.


SENHORES REGULADORES DO FUTURO
MANIPULADORES DE MOLECULAS
JOGADORES FRENÉTICOS DA BIO-GÉNETICA
APRESENTO-VOS A MORTE.



Celeste Martinez - escritora
Retirado do livro: Valenciando- poesia e prosa: antologia de escritores de Valença- Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 2005.

Gravura: Gustave Doré

Intercâmbio Cultural ALACAZUM

O artigo escrito por Celeste Martinez, intitulado: Fábio Luz, foi publicado no jornal Valença Agora da cidade de Valença, Bahia, http://www.valencaagora.com/x/b/bs.php?bl=1&menu=1924 e enviado para a Biblioteca Social Fábio Luz no Rio de Janeiro, obteve resposta de um dos seus membros. Transcrevo a correspondência enviada para o correio eletrônico do ALACAZUM, ontem dia 24 de agosto de 2008.

Celeste,

Gostei muito de seu texto sobre o grande médico anarquista Fábio Luz.

Sou membro da Federação Anarquista do Rio de Janeiro e um dos fundadores da Biblioteca Social Fábio Luz.

Esta última, fundada em 18/11/2001, funciona na sede da extinta Associação Bahiana Beneficente (da qual FábioLuz foi sócio por algum tempo), em Vila Isabel (Rua Torres Homem, 790) e conta com um acervo dedicado ao anarquismo, bem como outros temas políticos e literários.

Temos algum acervo do Fábio Luz, como livros e cópia digital do material disponível no Arquivo Nacional.

Faz alguns anos, conheci o filho mais novo de Fábio Luz, Dr. Braulio Luz, já muito idoso.

Ele me emprestou para copiar o volume do romance social"Ideólogo", com uma dedicatória do pai para ele. Há uma Tese de Mestrado sobre o Fábio Luz, escrita por Josely Tostes nos anos 90, pela PUC-SP. Temos em nosso acervo.

Há também um livro de Edgar Rodrigues chamado "Os Libertários", com um capítulo sobre Fábio Luz.

Podemos trocar informações sobre essa figura tão interessante.

Também temos aqui no Rio o Núcleo de Pesquisa Marques da Costa, dedicadoao resgate da história do anarquismo e do movimento operário aqui do RJ.

Me mande um endereço postal seu para que possa mandar algum material.

Um fraternal abraço,

Renato Ramos

domingo, 24 de agosto de 2008

93° edição ALACAZUM

Neste domingo, reprisamos a 92° edição: Especial poesia e música, do CD EU DESTILO LOUCURAS DOSADAS (poemas de Celeste Martinez). A difusão do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRER continua até o momento via internet. Breve retornaremo via rádio frequência. Pedimos a compreensão dos nossos ouvintes-leitores e dos nossos parceiros culturais. Grande abraço.
ALACAZUM PARA VOCÊ!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O que é o prazer?

"O único meio de fugir à tentação é ceder à tentação"
Oscar Wilde

Este conto é um brinde em louvor a uma espécie rara de borboleta, única no mundo: Jhozi Iphitas, da família Papiliomidae (Makina, 2008)

Certa vez, um Tietê-de-coroa*, que estava pousado à sombra de frondosa jaqueira, sentindo a carícia do vento em suas plumagens, questionou sobre o prazer. Perguntava a si mesmo se cada sensação provocada pelo vento desinteressadamente em seu pequeno corpo poderia ser considerado como elemento de satisfação. Estava tão envolvido em seus pensamentos que cogitou em voz alta:

- O que é o prazer?

Foi aí que uma folha caindo naquele instante à superfície de um rio que passava perto, interviu:

- O prazer é um bem dos ímpetos!

E o rio ao receber a folha que caiu em seu corpo silenciosamente, prosseguiu:

-É um bem do acaso!

E o vento que a todos visita, soprando à superfície do rio, disse:

- O prazer é um sopro sem destino!

- Pode acometer a todos indiscriminadamente... acrescentou a libélula.

-Prazer. Prazer. Prazer. Repetiu o papagaio pousando na jaqueira.

- O prazer é uma desgraça – refletiu a terra

- Uma pequena semente que cresce debaixo das sombras e nunca frutifica, retorquiu uma planta recém-nascida.

-Ah! Suspirou uma borboleta da família das Papiliomidae

E este suspirar que acumulava muito mais sensação que palavras, incomodou a terra.

- Você só sabe suspirar, caríssima borboleta?

-Não, senhora terra. Sei me embriagar da seiva e alimentar outras sementes. Ah! Voltou a suspirar a borboleta batendo suas coloridas asas.

- Você não passa de um inseto desatento. Pousa aqui e acolá. Estamos falando do prazer e você só sabe dizer: Ah! Ah!

- Quem aqui não entende de prazer é vossa senhoria, dizendo que o prazer é uma desgraça.

- E tenho razão com o que digo. O prazer não enxerga nada a sua volta. Invade os sentidos, sufoca a razão e quando menos se espera atraí todas as desgraças.

-Ha! ha! ha!, debochou o rio.

- De que rir, senhor dono das águas? Perguntou a terra.

- Rio de tua ingenuidade. O prazer assumi a si mesmo. Por isso é assim designado. E a senhora não me diga que não sente prazer ao receber a semente dentro do teu corpo?

- Ora, meu caro senhor dono das águas, estamos falando do prazer despretensioso. O que ocorre no interior do meu corpo são fenômenos naturais. O prazer é um estímulo externo.

-Provocado por outros estímulos externos a nós. A semente em tuas entranhas é um estimulo do prazer. Você não sente? Prosseguiu o rio.

-Sentir? Lógico que sinto mais isto não me desconcerta, não cria tumultos, não me desespera.

-Desesperar? Quem disse que o prazer desespera? Alguém aqui falou em desespero?

-Não! Não! Não! Repetiu em coro, a jaqueira, o Tietê-de-coroa, o vento, a folha, o papagaio, a borboleta e a libélula.

-Parem com esta algazarra, gritou a terra. Parece que todos estão contra mim.

-Que é isto senhora terra? Não é nada disto. Estamos espairecendo prazerosamente o prazer que sentimos. Relaxa!

-Relaxa. Relaxa. Relaxa. Repetiu insistentemente o papagaio e partiu.

-Ah! Ah! Ah! Suspirou a borboleta e vôo.

E enquanto o vento mais uma vez sacudia os galhos da frondosa jaqueira, colhendo-lhe algumas folhas... o que afugentou o pequeno Tietê-de-coroa, que ao fugir foi dizendo:

- O que é o prazer?

As folhas arrancadas da jaqueira ao caírem na superfície do rio repetiram:

- O prazer é um bem dos ímpetos!

E o rio para demonstrar essa sensação, criou muitos círculos que se agigantaram até sutilmente desaparecerem de sua superfície.

Foi-se o vento. Calou-se o rio. Desapareceu o Tietê-de-coroa, a libélula, o papagaio. Adormeceu a planta recém-nascida. E todas as prematuras folhas foram arrastadas pelas águas do rio. E a jaqueira, como sábia que é, para não alimentar o mau humor da terra, resolveu tirar uma soneca.

Ficou a terra solitária, refletindo as palavras do pequeno passarinho:

- O que é o prazer?

Foi aí, neste momento, que a terra sentiu a presença da garoa que começava a lhe salpicar o ventre, caindo lentamente entre a paz do entardecer e a presença de algumas estrelas pálidas que brilhavam longe. Se aquela sensação que circundava a escuridão tão próxima, poderia ser considerada prazer, então que permanecesse até quando durasse a noite. E se esse tal prazer que não anuncia a hora para instalar-se e que chega imperativamente fazendo-nos crer na eternidade... Então que seja! Que se revele! Que permaneça até o penúltimo sentir, revelado na pronuncia da última palavra.

*O Tietê-de-coroa ou Calyptura cristata (Vieillot, 1818), da Família Cotingidae, é uma espécie de pássaro, da fauna brasileira, provavelmente extinto.


Celeste Martinez- escritora

domingo, 17 de agosto de 2008

92° edição ALACAZUM

Na 92° edição do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER, que foi ao ar no dia 17 de agosto de 2008 (via on line), apreciamos poemas do CD: EU DESTILO LOUCURAS DOSADAS, da escritora Celeste Martinez, disponível para downloads no seguinte endereço eletrônico: http://www.alacazum.com/.


Cada poema foi acompanho das seguintes músicas:

1-Papoulas - The Smiths (música: The Boy with the thorn in his side)
2-Água, terra, fogo e ar - Pato Fu (música: Sobre o tempo)
3-Globo Mágico - Zeca Baleiro (música: O mundo)
4-Mulheres - Brazilian Girls (música: Mi gusta cuando callas)
5-Medo - Zé Ramalho (música: Chão de Giz)
6-Eles se vestem de negro -Johnny Cash (música: Man in Black)
7- Estrada Decolores - Chico Sciense (música: Um passeio no mundo livre)
8- Bato a minha porta e entro - Angra (música: Wuthering Height)
9-Eu destilo loucuras dosadas -Janis Joplin (música: Take another little piece of my heart)

A seleção musical e edição do programa ficou a cargo do Artista Poser Gugui Martinez - http://www.guguimartinez.blogspot.com/


Disponível para Download no seguinte endereço: http://www.alacazum.com/

Eu destilo loucuras dosadas

Um grito
rasgado
agudo
reto e ascendente corta o céu.

Abre com seu canto.
Desperta a neutralidade.


Um grito,
rasgado,
dolorido,
agudo e ascendente corta o céu.

Anuncia que é chegada a hora para o puro silêncio.

Ele vai,
Transcende.

Um grito,
Rasgado,
Dolorido,
Agudo,
Reto e ascendente
No escuro.

GRPÁGRETFKIUYTHKGH
VBDFRETADSQEWWJHKYU


EU DESTILO LOUCURAS DOSADAS
Tragam-me um verso
Tragam-me
Tragam-me
Tragam-me

EU DESTILO LOUCURAS DOSADAS.
Um pouco.

EU EXPULSO LOUCURAS DOSADAS.

O que vai além do frio?

A necessidade de aquecer-se.
Vejo o frio da insensibilidade
O frio da rotina
HÁBITOS
HÁBITOS
HÁBITOS
.

Vejo o frio da indiferença
E a diferença que faz com o cérebro e penso:
VOU PROCESSAR ESTES DETRITOS ATRAVÉS DAS MINHAS LENTES.

Petrifico minha alma
7532CR33457800
QWERTUIOP-ASDFGHJKLÇZXCVBNM,.;??

PETRIFICO MINHA ALMA E FICO SÓ.

Celeste Martinez – escritora
(retirado do livro: Valenciando – Antologia de escritores de Valença – Bahia – Brasil)



Mulheres


Todas as mulheres fogem
Ameaçadas entram na jaula.
Apagam a luz da realidade e rezam
Cantam hinos de misericórdia
Rogam milagres
Abortam paixões sonolentas
E sangram homens.

Todas pensam o “EU” livre
Mas todas têm úteros.

Todas têm mães e são madres
Face da mesma face
Todas as mulheres são pares.

Todas estão feridas
E aguardam a chance do grito
Do canto
Do riso
Mas todas voltam para o quarto e por três estações ficam preenchidas.

Todas são estátuas da liberdade
E calabouços de amor.

Todas as mulheres vestem luto
Todas choram
Fingem o gozo
Matam o macho
E fazem aborto.

Todas as mulheres mentem
E falam verdades.

Todas são cruéis quando traídas
Quando iludidas
Quando menosprezadas.

Todas as mulheres matam
Um dia
Uma vida
Um amor
Uma chance
Um segundo de paixão.

E todas as mulheres envelhecem
Perdem o sabor
Ficam estéreis
Ressecadas e frias.

Todas as mulheres morrem
Por um fio – FILHO
Por uma ponte – HOMEM
E todas ressuscitam quando querem
Mas só algumas são virgens
Mártires.

Todas as mulheres são universos
Em terra
Em água
Em si
No talvez
Na certeza
Em sonho.

(Todas) PECAM
PADECEM

(São) SUBVERSIVAS
SUBMERSAS
SUBALTERNAS (mulheres)

Mas só algumas são damas
Rainhas
Esfinges
Um jogo.

Mulheres são
Mulheres vão
Mulheres não – COMEÇO.

Só mulheres gozam
Só mulheres parem
Só esposas são obedientes
Só amantes são eternas
Só VÊNUS amor
Só HELENA guerra.
Só CIRCE veneno
Só MEDUSA tormento

Só mulheres parem HOMENS
E mulheres amam HOMENS
E mulheres
E mulheres...
E mulheres...
Celeste Martinez – escritora
(retirado do livro: Valenciando – Antologia de escritores de Valença – Bahia – Brasil)

Papoulas

Papoulas guardam o céu de HÓRUS
E no palco do TÁRTARO
A sede não é nada para TÂNTALUS.

Lanço discos de sol em minha boca e nasce ATON
E no ventre de ÍRIS
O filho de ORFEU
Traz poemas sacros
Oráculos.

Quero desvestir o leito negro ébano
Onde os TITÃS se escondem.

Quero miosótis azuis em GAIA
Quero úteros de flores
Palpitando um novo homem.

Quero no vinte e um
No sétimo mês
Do sétimo dia
À hora sétima
Sete vezes revelado nas estrelas
O sonho de uma nova primavera
DEUS
ZEUS
GAIA
TERRA
.
Celeste Martinez – escritora
(retirado do livro: Valenciando – Antologia de escritores de Valença – Bahia – Brasil)

Medo

Enfia teus dedos em hirto em minha garganta
E arranca o medo virulento
Que ameaça as minhas células
Se o MEDO
Mesmo assim
Insistir em não sair
ESMAGA-O
Com o martelo de THOR.

Celeste Martinez - escritora (retirado do livro: Valenciando- Antologia de escritores de Valença - Bahia - Brasil)

Eles se vestem de negro

Eles se vestem de negro
São abutres
E a terra fede
Comem de tudo
Até os versos de Augusto dos Anjos

Com passos lentos
Pacientes
Eles seguem

Vão além dos ares decapitar frias vítimas para os seus atos.

A terra clama
Mas o que se revela é a hecatombe apocalíptica do cordeiro que a pouco existia.

Torna-se um grande deserto
A terra “hominis”
E o assobio entrecortado do vento desarma a esperança primitiva do amanhã.

Mas eis que de repente
Ressurge o verbo outrora morto.

Um homem.

Não,
Uma ave sideral aporta à superfície desértica do tempo
E depõem embriões provenientes de sua essência.

O sol estoura o cérebro – semente adormecida.

E ergue-se o homem
Não tem sexo ainda
Todavia caminha.

E em seu trajeto
Delicadas pegadas
Cicatrizes do amanhã
Sementes novas que vão brotando
VIOLETAS

JASMINS

MARGARIDAS

ROSAS

ANGÉLICAS

HORTÊNCIAS
.


Celeste Martinez - escritora (retirado do livro: Valenciando- Antologia de escritores de Valença - Bahia - Brasil

Globo Mágico

Ontem,
visitei um mundo em que o céu era de um vermelho sangue.
Ontem,
visitei um mundo bem distante.
Visitei um céu en que o mundo era ilusão
em que homens, cuspiam magia em forma de fogo e mulheres prescreviam a fórmula da juventude
sendo belas com tão pouco.
Ontem,
um céu
sangue.
E estrelas emparelhadas de cor branco.

Celeste Martinez - escritora (retirado do livro: Valenciando- Antologia de escritores de Valença - Bahia - Brasil)

Água, terra, fogo e ar

Água
Terra
Fogo e ar
Conspiram ao meu favor.

Sinto
Aspiro
Vejo e toco
A sucessão do instante morto ao meus pés
RÉQUIEM PARA UM PARADIGMA.

Se todos os ápices
Se todos os vértices
Sedimentassem bases
O tempo desta espera expulsaria uma nova cria.

Provaria ao instante
Que a ARTE equivale a ARTE
O VAZIO ao VAZIO.


E QUE EU SOU A CLAVE!

Como submeter o futuro a esta conspiração?

Não podemos respirar dentro deste aquário.
A era está parindo um novo tempo e somos os TITÃS dentro de GAIA.

Celeste Martinez - escritora (retirado do livro: Valenciando- Antologia de escritores de Valença - Bahia - Brasil)



Estrada Decolores

Dálias brancas
Cacaus amarelos
E pimentas vermelhas
NA ESTRADA DECOLORES


Rosas rosas
Verdes mamões
E o vermelho do camarão
Que é fachada de um bar
NA ESTRADA DOS SABORES

Distantes craveiros
E palmeiras distantes
Num céu todo azul
Sensíveis opacas cores
De um verde amarelado das flores
De esguios quiabos


Violetas anêmonas
Entreabrem-se
São as flores dos saborosos maracujás.

Charmosíssimas noivas
São as flores dos laranjais
E um cheiro forte de café no ar

E os dendês
Dormentes
Dormem
Friamente no barro da estrada.

E os machados
Se aquecem com as carnes de envelhecidas jaqueiras
NA ESTRADA DAS DORES

Na estrada,
Terapia intensiva para a dor
Que traz a flor.

Celeste Martinez - escritora (retirado do livro: Valenciando- Antologia de escritores de Valença - Bahia - Brasil)


Bato a minha porta

Bato a minha porta e entro.
Recolho-me ao quarto.
Perco as chaves.
Acendo as luzes do pensamento e em suas paredes rabisco frases.
Dispo-me,
Visto-me,
De invisibilidade
e em suas entrelinhas traduzo-me.
Neste amplo e recolhido quarto
Existem ESPELHOS
E as únicas janelas existentes são meus olhos.
É noite nos poemas tristes
E frio em minha culpa por pensá-los.
Caem folhas,
Corre o vento,
Desce a chuva sobre as pedras das calçadas,
Discorre o sol nas cicatrizes dos corações,
Passam homens,
Super-homens.
Passam mulheres,
CUIDADO FRÁGEIS!
Passam querubins,
Passam sonhos transbordantes,
Cântaros,
Que se derramam dentro do quarto.

Celeste Martinez - escritora (retirado do livro: Valenciando- Antologia de escritores de Valença - Bahia - Brasil)