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domingo, 26 de julho de 2015

História para criança, de Cassiano Ricardo


Na 409° edição do programa radiofônico Alacazum palavras para entreter, apresentado pela escritora Celeste Martinez, no dia 28 de junho de 2015, das 8 às 9 h, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9. O tema versou sobre o trabalho discográfico: O menino poeta, produzido pelos estúdios Eldorado. Seleção de poemas musicados pelo regente, violonista e compositor brasileiro Antonio José Madureira e declamados pela atriz Irene Ravache e outros cantados por Solange Maria, Mirinha e Coral Infantil. Nesta edição foram selecionados os seguintes poemas: lenda do céu de Mário de Andrade; Enchente, de Jorge de Lima; e História para criança de Cassiano Ricardo.

História para criança de Cassiano Ricardo

Então o Brasil-menino
Rabiscou no seu caderno
De figuras esta história
Do seu destino:

Primeiro a manhã indígena
Saiu da montanha espessa
Trazendo um cocar vermelho
Sobre a cabeça

Depois o dia marítimo
Das velhas naus portuguesas
Saltou de dentro de ondas
Qual pássaro branco
Ruflando a asa enorme
Das velas retesas

E a noite africana por último
Que chegou amarrada
No porão do navio
Com os seus orixás
Com os seus amuletos
E que veio para terra
Trazida nos ombros dos pretos

Cassiano Ricardo


quarta-feira, 23 de julho de 2014

O Cacto, de Cassiano Ricardo


Na 360° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentação da escritora e locutora Celeste Martinez, que foi ao ar no dia 20 de julho de 2014, das 8 às 9 h transmissão ao vivo 87,9 Rio Una FM, apreciamos a poesia: O cacto, de Cassiano Ricardo.

O Cacto

Vamos, todos, brincar de cacto
na areia da nossa tristeza.
Uma folha sobre outra,
em caminho do céu intacto.

Uns nos ombros dos outros,
um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra,
formaremos um grande cacto.

De cada braço, já no espaço,
nascerá mais um braço, e deste
outros braços, qual ramalhete
de flores para um só abraço.

Filhos da pedra e do pó,
fique aqui embaixo o nosso orgulho,
pisado sobre o pedregulho.
Formaremos, num corpo só,

( uma folha sobre outra
uma folha sobre outra,
um braço a nascer de outro braço)
a nossa escada de Jacó.

Pra quê torre de Babel
ou o Empire State, compacto,
se, uns nos ombros dos outros,
chegaremos ao céu, num cacto?

Uma folha sobre outra
e já uma árvore de feridas
por entre os anjos de azulejo
e as borboletas repetidas.

Que fique aqui embaixo a terra;
lá de cima nós tiraremos
uma grande fotografia
do seu rosto de ouro e prata.

Pra provar a Deus que a terra,
numa fotografia exata,
não é redonda, mas chata;
não é redonda, mas chata.

Pra provar, por B mais H
que o homem, animal suicida,
já sabe fabricar estrelas...
Se é que Deus disto duvida.

Que iríamos fabricar luas
( se não fora, para Seu gáudio,
o espião nos ter furtado a fórmula)
mais bonitas do que as Suas.

Vamos, todos, brincar de cacto,
uns nos braços dos outros,
um abraço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra.

Vamos subir, de folha em folha
mais alto do que vai o avião.
Lá onde os anjos jogam pedras
no cão da constelação.

Que outros usem avião a jacto
pra uma viagem em linha reta:
nós, filhos da planície abjeta,
subiremos ao céu num cacto.

Uns nos ombros dos outros,
injustiças sobre injustiças
formaremos um verde pacto...
Vamos, todos, brincar de cacto.

Vamos, todos, brincar de cacto

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Na 236° edição do ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER

Na 236° edição do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER que foi ao ar no dia 11 de setembro de 2011, transmissão Rio Una FM 87,9 apreciamos na abertura do programa o poema: Ficam-me as penas de Cassiano Ricardo.

Ficam-me as penas

O pássaro fugiu, ficam-se as penas
da sua asa, nas mãos desencantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.


Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.


Cassiano Ricardo