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domingo, 19 de abril de 2015

Na 397° edição do ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER

Na 397° edição do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER, idealizado, produzido e apresentado pela escritora e locutora CELESTE MARTINEZ, no dia 5 de abril de 2015, das 8 às 9 h, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9, contamos com a participação do amigo e parceiro cultural Vidalto Oiticica- Diretor do Jornal Valença Agora. A ida do senhor Vidalto ao ALACAZUM foi para tentar elucidar a importância do programa para a comunidade de Valença e convocar novas parcerias. Fizemos a leitura da crônica de Adroaldo Ribeiro Costa


Velha Anedota

Não sei se acontece isto com vocês, mas quando me relembram uma velha anedota, sinto-me como se houvesse reencontrado um velho amigo, porque, de fato, a anedota é algo que nos ajuda a viver, a aliviar as agruras da vida, e está faltando aluém que proceda a um estudo sobre o valor da anedota para a vida do indivíduo e da comunidade.

Relendo velhas crônicas, encontrei uma que publiquei há alguns anos e senti vontade de publicá-la de novo. É assim:

O inspetor escolar chegou à cidadezinha e logo na manhã seguinte foi visitar a escola. Recebido naturalmente com todas as honras, pela professora que o apresentou à classe, o inspetor quis saber:

- Como vai o aproveitamento dos meninos, professora?

- Muito bom, inspetor! Muito bom mesmo.

-Permita-me fazer uma verificação?

- Pois não, o senhor pode perguntar o que quiser.

O inspetor escolheu um garoto que estava sentado à frente:
 
- Venha cá, meu filho. Como é seu nome?

- É Zezinho.

- Muito bem, Zezinho, quero que você me responda a esta pergunta: quem foi que incendiou Roma?

O menino avermelhou, gagejou, mas não respondeu. O inspetor insistiu:

- Responda, Zezinho. Não é possível que você não saiba quem foi que incendiou Roma...

O menino rompeu em choro:

- Juro que não fui eu... Não fui eu!

O inspetor virou-se para a mestra ao lado:

-E esta?

A professora formalizou-se:

- Este menino não mente, inspetor. Está dizendo que não foi ele, é que não foi mesmo.

O inspetor não pôde conter a surpresa:

- Desculpe-me mas, ao que tudo indica, a senhora também não sabe?

- Só sei de uma coisa, com absoluta certeza: não foi o Zezinho!...

O inspetor suspirou e resolveu levao o caso na esportiva:

-Pelo que estou vendo, ninguém aqui sabe quem incendiou Roma. ( Silêncio Confirmativo ). Pois muito bem, vocês tem o dia inteiro para pesquisar o assunto e amanhã voltarei para saber a resposta.

À noite estava o inspetor na pensão, quando foi procurado pelo prefeito que, muito encabulado, foi dizendo:

- Doutor, hoje de manhã, na escola, o senhor perguntou a um menino quem tinha incendiado Roma, e como ele não soubesse, o senhor mandou que toda a classe procurasse a resposta, não é verdade?

- É verdade sim; isto faz parte da nova técnica de ensino: os alunos saem a fazer a pesquisa e o conhecimento adquirido fica mais sólido. De maneira que amanhã...

- Perdoe-me se o interrompo, doutor. Mas, o fato é que por causa disto houve um reboliço enorme na ciadade, o dia todo, e a verdade é que ninguém por aqui sabe do fato!

- Mas meu caro prefeito...

- Sem querer cortar-lhe a palavra, doutor, preciso explicar-lhe que o Zezinho é filho de um elemento da oposição e a coisa está sendo entendida como uma picuinha do governo. Ora, a politica por aqui já esta fervendo muito e eu não quero qua as coisas piorem.

O inspetor, a esta altura, é que já não estava entendendo nada de nada:

- Escute, prefeito, eu só queria saber...

O prefeito interrompeu mais uma vez e falou com toda a solenidade:

- Escute o senhor, doutor. Dou-lhe minha palavra de honra de que esse negócio não ocorreu na minha gestão. Mas isto não tem importância: o senhor diz quanto foi o prejuizo, eu pago e a gente dá o caso por enxerrado...

Vocês riram? Eu ri.

Páginas Escolhidas- crônicas de Adroaldo Ribeiro Costa. Seleçã, organização e introdução Aramis Ribeiro Costa

quarta-feira, 12 de março de 2014

Crônica: Conhecem? de Lima Barreto

Na 342º edição do Alacazum palavras para entreter que foi ao ar no dia 2 de março de 2014, das 8 às 9 h da manhã de domingo; apresentação da escritora e locutora Celeste Martinez; transmissão ao vivo 87,9 Rio Uma FM; cujo tema: Carmen Miranda – a pequena notável –  realizamos a leitura da crônica: Conhecem?de Lima Barreto. Por quê? Por que o escritor Lima Barreto viveu o Rio de Janeiro e relatou em suas crônicas o modo de vida das pessoas, a política da  época, costumes, etc. 

Conhecem?

Eu não sei que mania se meteu na nossa cabeça moderna de que todas as dificuldades da sociedade se podem obviar mediante a promulgação de um regulamento executado mais ou menos pela coação autoritária de representantes do governo.
Nesse caso de criados, o fato é por demais eloqüente e pernicioso.
Por que regulamentar-se o exercício da profissão de criado? Por que obrigá-los a uma inscrição dolorosa nos registros oficiais, para tornar ainda mais dolorosa a sua situação dolorosa?
Por quê?
Porque pode acontecer que sejam metidos nas casas dos ricos ladrões ou ladras; porque pode acontecer que o criado, um dado dia, não queira mais fazer o serviço e se vá embora.
Não há outras justificativas senão estas, e são bem tolas.
Os criados sempre fizeram parte da família: é concepção e sentimento que passaram de Roma para a nobreza feudal e as suas relações com os patrões só podem ser reguladas entre eles.
A Revolução, aniquilando a organização da família feudal, trouxe à tona essa questão da famulagem; mas, mesmo assim, ela não rompeu o quadro familiar de modo a impedir que os seus chefes regulem a admissão de estranhos no lar.
A obrigação do dono ou dona de casa que procura um criado, que o põe debaixo do seu teto, é saber quem ele é; o resto não passa de opressão do governo sobre os humildes, para servir à comodidade burguesa.
Querem fazer das nossas vidas, dos indivíduos, das almas, uma gaveta de fichas. Cada um tem que ter a sua e, para obtê-la, pagar emolumentos, vencer a ronha burocrática, lidar com funcionários arrogantes e invisíveis, como em geral, são os da polícia.
Imagino-me amanhã na mais dura miséria, sem parentes, sem amigos. Sonho fazer-me esquivo e bato à primeira porta. Seria aceito, mas é preciso a ficha.
Vou buscar a ficha e a ficha custa vinte ou trinta mil-réis. Como arranjá-los?
Eis aí as belezas da regulamentação, desse exagero de legislar, que é o característico da nossa época.
Toda a gente sabe a que doloroso resultado tem chegado semelhante mania.
Inscrito um tipo nisto ou naquilo, ele está condenado a não sair dali, a ficar na casta ou na classe, sem remissão nem agravo.
Deixemos esse negócio entre patrões e criados, e não estejamos aqui a sobrecarregar a vida dos desgraçados com exigências e regulamentos que os condenarão toda a sua vida à sua lamentável desgraça.
Os senhores conhecem a regulamentação da prostituição em Paris? Os senhores conhecem o caso da Mme. Conte? Oh! Meu Deus!


Vida Urbana, 15-1-1915