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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Cem anos de perdão, de Clarice Lispector

Na 370° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentação da escritora e locutora Celeste Martinez, que foi ao ar no dia 28 de setembro de 2014, das 8 às 9 h transmissão ao vivo 87,9 Rio Una FM, apreciamos a leitura do texto: Cem anos de perdão de Clarice Lispector.

Cem anos de Perdão

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brinávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu”. “Não, eu já disse que os brancos são meus”. “Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia umm pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa e a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

Levei-a para casa, coloquei-a num copo d´agua, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de ros-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

Foi tão bom.

Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto da casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentadas. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para se colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.


Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Declaração de Amor, de Clarice Lispector

Na 369° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentação da escritora e locutora Celeste Martinez, que foi ao ar no dia 21 de setembro de 2014, das 8 às 9 h de domingo, transmissão ao vivo 87,9 Rio Una FM, apreciamos a leitura do texto: Declaração de Amor, de Clarice Lispector, no livro: A descoberta do mundo.

Declaração de Amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temeriamente ousam transformá-la numa lunguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Ás vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentalmente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de línguas já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Enigma, de Clarice Lispector


Na 366° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentado pela escritora e locutora Celeste Martinez e que foi ao ar no dia 31 de agosto de 2014 das 8 às 9 h, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9 apreciamos a crônica: Enigma, de Clarice Lispector, no livro: A descoberta do mundo.


Enigma

Ela estava vestida de uniforme listrado de empregada, mas falava como dona-de-casa. Viu-me subir as escadas cheia de embrulhos e parando para sentar nos degraus – os dois elevadores estavam enguiçados. Ela morava no quinto andar, eu no sétimo. Subiu comigo segurando alguns de meus embrulhos numa das mãos, e na outra o leite que comprara. Quando chegou ao quinto andar, botou o leite em casa dela entrando pela porta de serviço, depois fez questão de segurar meus embrulhos e de subir comigo até o sétimo.
Que mistério era esse: falava como dona-de-casa, seu rosto era o de dona-de-casa, e no entanto estava uniformizada. Sabia do incêndio que eu sofrera, imaginava a dor que eu sentira, e disse: mais vale a pena sentir dor do que não sentir nada.
- Tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam nem deprimidas, e não sabem o que perdem.
Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.
E – juro- acrescentou o seguinte: “ A vida tem que ter um aguilhão, senão a pessoa não vive”. E ela usou a palavra aguilhão, de que eu gosto.

Clarice Lispector, em A descoberta do mundo

sábado, 22 de março de 2014

O Sonho de Clarice Lispector

Na 344º edição do Alacazum palavras para entreter que foi ao ar no dia 16 de março de 2014, das 8 às 9 h da manhã de domingo, apresentação da escritora e locutora Celeste Martinez; transmissão ao vivo 87,9 Rio Uma FM, prosseguimos com o tema da cultura popular,  baseado no livro: Casa – Grande & Senzala em Quadrinhos do escritor Brasileiro Gilberto Freyre. É tradição a cada domingo o oferecimento de uma caixa de chocolate, ofertada pela Pizzaria os Martinez – parceiro do alacazum -  O público participa respondendo perguntas sobre assuntos variados e ao final do programa faz-se o sorteio. Nesta edição, as perguntas foram baseadas no livro Casa – Grande &  Senzala do Gilberto Freyre, usufruímos novamente das quadras contidas no livro: Armazém do Folclore de Ricardo Azevedo e também desfrutamos da poesia: O sonho autoria da Clarice Lispector e que foi  postada pela amiga  Lilian Fernandes, na rede social Facebook quando da  atividade seguinte:  Você deve postar em tua linha do tempo uma  poesia, em até 24 h e indicar outros cinco amigos e amigas para cumprir o desafio. Caso contrário, deverão presentear com um livro de poesia. O Alacazum participou da brincadeira e aproveitou para fazer a leitura de algumas postadas pelos ouvintes-leitores do Alacazum

O sonho

“ Sonhe com aquilo que você quer ser,
Porque você possui apenas uma vida
E nela só se tem uma chance
De fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
Dificuldade para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas,
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
Que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que  buscam e tentam sempre
E para aqueles que reconhecem

A importância das pessoas que passaram por suas vidas.

Clarice Lispector

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Na 335° edição do Alacazum palavras para entreter

Na 335º edição do Alacazum palavras para entreter que foi ao ar no dia 12 de janeiro de 2014, das 8 às 9 h da manhã de domingo, transmissão ao vivo 87,9 Rio Uma FM, revivemos a abertura do programa de rádio do radialista baiano, Nilton Moura Costa, na década de 1970 e apreciamos a leitura do texto: Medo da eternidade de Clarice Lispector.

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
 Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, ás vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começava a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora, que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
-Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamos-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente sem parar. Até que não suportei mais e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que aconteceu! - Disse eu em fingido espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou.
- Já lhe disse, repetiu a minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca pro acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Clarice Lispector

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Para acabar de " Fundir a Cuca" de Clarice Lispector

Na 306° edição do Alacazum palavras para entreter que foi ao ar no dia 23 de junho de 2013, das 8 às 9 h da manhã de domingo, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9 cujo tema: Tradições Populares- Festas Juninas ou Joaninas; apreciamos o texto: Para acabar de " Fundir a Cuca" da Clarice Lispector.

- Ninguém ignora que sal no fogo ou uma vassoura escondida atrás da porta ocasionam a partida imediata de visitas cacetes.
- Ninguém ignora que uma fita encarnada amarrada no corpo do doente impede o progresso da erisipela.
- Do mesmo modo, um pano vermelho pendurado no quarto de dormir faz brotar sarampo encruado.
- Para soluço, nada melhor que tomar nove golinhos de água, sem respirar. Ou então dobrar a manga. Para soluço em criança pequena não há  nada como colocar sobre sua testa um pedacinho de algodão molhado.
- Chuchu enterrado de manhã bem cedo faz caírem verrugas.
- Quem derrubar açúcar na mesa, é só pôr uma pitadinha no seio que vem dinheiro na certa.
- E sal é má notícia quando derramado, a menos que se jogue um pouquinho dele por trás do ombro esquerdo.
- Tocar na madeira para " isolar" todo o mundo sabe.
- Pato para ficar saboroso tem que ser depenado num silêncio absoluto. E para que uma galinha fique bem mole, bem macia, a receita é pôr na panela três grãos-de-bico ou um prego.
- Enquanto isso cavalo-marinho alivia asma.
- Para quem sua nas mãos é só segurar um sapo durante uns minutinhos que sara logo.
- Como todo mundo sabe, faca cruzada é sinal de briga e que não se passa pelo mesmo motivo sal na mesa.
- Espelho quebrado se atira no mar.
- Não se bota chapéu em cima da cama e sapato em cima de cadeira.
- É sempre melhor calçar o pé direito antes do esquerdo.
- Deve-se esconder um fio de cabelo na barra dos vestidos de noiva.
- Para sair de um lugar nunca se deve tomar uma porta que não seja aquela por onde se entrou.
- Quem varre casa de noite jogando fora o lixo também joga fora a fortuna.
- Quando se vira por acaso a bainha do vestido é conveniente mordê-lo para ganhar outro noivo.
- Amarelo é cor de ano bissexto.
- Para garantir a boa saúde de criancinhas é ótimo pendurar-lhes no peito um saco pequeno cheio de rabinhos de lagartixas.
- Que um Santo Antonio roubado leva ao altar qualquer solteirona desanimada.
- Coceira na mão direita é dinheiro chegando.
- Que se deve pagar um tostão quando se ganha um lenço ou uma faca.
-Boa defesa para mau-olhado é um copo de água fresca com três  pitadas de sal.
- Há olhares que secam pimenteira.
Bem creio que a essa altura, e sobretudo com a prática dos preceitos acima citados - a cuca está fundida para sempre.

Clarice Lispector

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As maravilhas de cada mundo


As maravilhas de cada mundo

Tenho uma amiga chamada Azaléia, que simplesmente gosta de viver. Viver sem adjetivos. É muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. Sua vida é difícil, mas é sua.
Um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. Quais? Dependia da pessoa.
Ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.
Primeira: ter nascido. Ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.
Segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. Com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.
Terceira: sua capacidade de amar. Através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.
Quarta: sua intuição. A intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.
Quinta: sua inteligência. Considera-se uma privilegiada por entender. Seu raciocínio é agudo e eficaz
Sexta: a harmonia. Conseguiu-a através dos seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral e o seu próprio mundo.
Sétima: a morte. Ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.

Clarice Lispector- A descoberta do mundo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Uma esperança


Na 150° edição do programa radiofônico ALACAZUM PALAVRAS PARA ENTRETER que foi ao ar no dia 18 de outubro de 2009, transmissão pela Rádio Clube de Valença 650 KHZ AM realizamos a leitura da crônica: Uma esperança de Clarice Lispector.

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.Houve um grito abafado de um de meus filhos:- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira ! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.- Ela quase não tem corpo, queixei-me.- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.- Ela é burrinha, comentou o menino.- Sei disso, respondi um pouco trágica.- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.- Sei, é assim mesmo.- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.- Sei, continuei mais infeliz ainda.Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.




Crédito da imagem: Antonio Lopes