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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Declaração de Amor, de Clarice Lispector

Na 369° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentação da escritora e locutora Celeste Martinez, que foi ao ar no dia 21 de setembro de 2014, das 8 às 9 h de domingo, transmissão ao vivo 87,9 Rio Una FM, apreciamos a leitura do texto: Declaração de Amor, de Clarice Lispector, no livro: A descoberta do mundo.

Declaração de Amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temeriamente ousam transformá-la numa lunguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Ás vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentalmente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de línguas já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós a temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Um homem feliz, de Clarice Lispector



Na 366° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentado pela escritora e locutora Celeste Martinez e que foi ao ar no dia 31 de agosto de 2014 das 8 às 9 h, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9 apreciamos, novamente, outra crônica da Clarice Lispector, intitulada: Um homem feliz, retirado do livro: A descoberta do mundo.

Um homem feliz


Um dia desses tomei um táxi e acendi um cigarro. Ao primeiro sinal de parada de luz vermelha, o chofer me disse:

- A senhora quer ter a gentileza de me emprestar seus fósforos?

Estendi-lhe a caixa, e quando a devolveu, antes que ele disesse alguma coisa, falei distraidamente por hábito:

- De nada.

E ele:

- Eu ainda não tinha agradecido. Por que é que a senhora disse " de nada " ?

- Ah, não tem importância.

- Me desculpe, mas tem importância. A senhora devia ter esperado que eu dissesse " muito obrigado " e depois é que a senhora ia responder " de nada ".


- Não importa, disse eu um pouco surpreendida.

Mas importava sim. Seu tom, ao ter falado, era o de um homem que defende leis que foram violadas. Era como se ele tivesse caído em terreno perigoso. Olhei-o melhor: e vi quanto aquele homem era pouco livre e como ele precisava sentir-se preso, e aos outros também. Tentei então uma doçura que o suavizasse, e, mais pela entonação da voz que por meio das palavras, eu lhe disse:

- De verdade, moço, não tem mesmo importância...

Mas ele insistiu duro:

- De outra vez a senhora espere que lhe agradeçam.

Nada mais havia a fazer, além do que eu também estava um pouco irritada. Até o fim da corrida não dissemos mais nada. E se há um silêncio mudo era aquele.


Clarice Lispecto, em A descoberta do mundo

Enigma, de Clarice Lispector


Na 366° edição do Alacazum Palavras Para Entreter, apresentado pela escritora e locutora Celeste Martinez e que foi ao ar no dia 31 de agosto de 2014 das 8 às 9 h, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9 apreciamos a crônica: Enigma, de Clarice Lispector, no livro: A descoberta do mundo.


Enigma

Ela estava vestida de uniforme listrado de empregada, mas falava como dona-de-casa. Viu-me subir as escadas cheia de embrulhos e parando para sentar nos degraus – os dois elevadores estavam enguiçados. Ela morava no quinto andar, eu no sétimo. Subiu comigo segurando alguns de meus embrulhos numa das mãos, e na outra o leite que comprara. Quando chegou ao quinto andar, botou o leite em casa dela entrando pela porta de serviço, depois fez questão de segurar meus embrulhos e de subir comigo até o sétimo.
Que mistério era esse: falava como dona-de-casa, seu rosto era o de dona-de-casa, e no entanto estava uniformizada. Sabia do incêndio que eu sofrera, imaginava a dor que eu sentira, e disse: mais vale a pena sentir dor do que não sentir nada.
- Tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam nem deprimidas, e não sabem o que perdem.
Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.
E – juro- acrescentou o seguinte: “ A vida tem que ter um aguilhão, senão a pessoa não vive”. E ela usou a palavra aguilhão, de que eu gosto.

Clarice Lispector, em A descoberta do mundo

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Para acabar de " Fundir a Cuca" de Clarice Lispector

Na 306° edição do Alacazum palavras para entreter que foi ao ar no dia 23 de junho de 2013, das 8 às 9 h da manhã de domingo, transmissão ao vivo Rio Una FM 87,9 cujo tema: Tradições Populares- Festas Juninas ou Joaninas; apreciamos o texto: Para acabar de " Fundir a Cuca" da Clarice Lispector.

- Ninguém ignora que sal no fogo ou uma vassoura escondida atrás da porta ocasionam a partida imediata de visitas cacetes.
- Ninguém ignora que uma fita encarnada amarrada no corpo do doente impede o progresso da erisipela.
- Do mesmo modo, um pano vermelho pendurado no quarto de dormir faz brotar sarampo encruado.
- Para soluço, nada melhor que tomar nove golinhos de água, sem respirar. Ou então dobrar a manga. Para soluço em criança pequena não há  nada como colocar sobre sua testa um pedacinho de algodão molhado.
- Chuchu enterrado de manhã bem cedo faz caírem verrugas.
- Quem derrubar açúcar na mesa, é só pôr uma pitadinha no seio que vem dinheiro na certa.
- E sal é má notícia quando derramado, a menos que se jogue um pouquinho dele por trás do ombro esquerdo.
- Tocar na madeira para " isolar" todo o mundo sabe.
- Pato para ficar saboroso tem que ser depenado num silêncio absoluto. E para que uma galinha fique bem mole, bem macia, a receita é pôr na panela três grãos-de-bico ou um prego.
- Enquanto isso cavalo-marinho alivia asma.
- Para quem sua nas mãos é só segurar um sapo durante uns minutinhos que sara logo.
- Como todo mundo sabe, faca cruzada é sinal de briga e que não se passa pelo mesmo motivo sal na mesa.
- Espelho quebrado se atira no mar.
- Não se bota chapéu em cima da cama e sapato em cima de cadeira.
- É sempre melhor calçar o pé direito antes do esquerdo.
- Deve-se esconder um fio de cabelo na barra dos vestidos de noiva.
- Para sair de um lugar nunca se deve tomar uma porta que não seja aquela por onde se entrou.
- Quem varre casa de noite jogando fora o lixo também joga fora a fortuna.
- Quando se vira por acaso a bainha do vestido é conveniente mordê-lo para ganhar outro noivo.
- Amarelo é cor de ano bissexto.
- Para garantir a boa saúde de criancinhas é ótimo pendurar-lhes no peito um saco pequeno cheio de rabinhos de lagartixas.
- Que um Santo Antonio roubado leva ao altar qualquer solteirona desanimada.
- Coceira na mão direita é dinheiro chegando.
- Que se deve pagar um tostão quando se ganha um lenço ou uma faca.
-Boa defesa para mau-olhado é um copo de água fresca com três  pitadas de sal.
- Há olhares que secam pimenteira.
Bem creio que a essa altura, e sobretudo com a prática dos preceitos acima citados - a cuca está fundida para sempre.

Clarice Lispector