quarta-feira, 31 de maio de 2017

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 22 de maio de 2017

Para Paola que vive em Campana -Bs As Argentina
Estava na filial da Pizzaria Os Martinez, sentada confortavelmente, bem em frente ao cruzamento entre as ruas Oldack Nascimento e a avenida Antonio Carlos Magalhães, justo onde está a sinaleira, observando a artista callejero, fazer malabarismos com bambolês.
A garota, pouco mais de vinte anos, franzina, rosto alongado, na cabeça, uma boina cor preto, vestido verde e calçando tênis, explorava os movimentos do brinquedo, uma hora com um pé, com o outro, com a mão direita, mão esquerda, no tórax. Firme em um só pé. Além da agilidade e experiência que demonstrava com o uso do equipamento, o sorriso estampado no rosto, foi sem sombra de dúvida a expressão mais marcante naquele momento observando-a.
A cada finalização do mini espetáculo, ela, enclinava o corpo para frente, agradecendo. Ao fazê-lo, parecia está diante de uma numerosa platéia, ouvindo trilhões de aplausos. Após, caminhava em direção aos carros, na esperança de uma recompensa pífia. Entre dez carros parados, um, contribuia. E ela, tirava a boina e apresentava como recipiente para o depósito. “ A la gorra” como se diz na Argentina. Lá, é muito comum estes artistas se apresentarem nas ruas. Daí a expressão “callejeros”. Quando, de minha passagem, por lá no ano dois mil, conheci a artista Paola que amava o Brasil. Agora, recordando-a, vejo, que é o mesmo sorriso, que oferta gratuitamente esta menina, que aí está, fazendo malabarismo na sinaleira.
Os automóveis passavam, novos se posicionavam e a menina, continuava a sua apresentação circense.
O céu, neste momento, totalmente cinza. Chuvia de fininho. Eu, no conforto, sentada em uma cadeira, protegida contra as intempéries.
Terão elas e eles, artistas callejeros, aprendido a filosofia do desapego?
Que missão, quase impossível, é esta, em ofertar alegria e descontração para uma pláteia preocupada, nervosa, contrariada, impaciente e atenta apenas ao objetivo que é ir e ir ?
Quantas, dessas pessoas, estacionadas dentro dos carros, vêem a menina?
Quantas, enxergam como artista?
Agora, a chuva passou. O sinal está aberto para o azul que aponta no céu.
A garota, sorridente, continua firme. Ela é versátil, dinâmica. Atraí olhares curiosos dos transeuntes. Mais não para o trânsito. Aproveita, sim, a brecha dos segundos permitidos para que o movimento cotidiano siga sem riscos.
Passa das dez.
Teria, a menina, se alimentado?
As contribuições monetárias, arrecadadas são suficientes para uma refeição?
Que gérmen é esse incrustado no sangue destes artistas que incentiva a sair pelo mundo?
Creio que os artistas callejeros, são passarinhos, que levam um tiquinho do seu canto-alegria para pessoas em trânsito.


Valença, Bahia, 22 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 21 de maio de 2017


  Para Elizete, do Jambeiro.

Nestes últimos dez anos, o dia de domingo, sempre foi muito especial. Principalmente as manhãs. Estou falando do programa de rádio Alacazum palavras para entreter.
Neste domingo, 21 de maio de 2017, por primeira vez, esqueci de lembrar do Alacazum.
Dormir até tarde. Quando abrir os olhos e a vida entrou em mim, sussurando sobre a chuva que caía lá fora, eu ainda estava na cama. O abrir dos olhos veio acompanhado da seguinte frase:
Nestes últimos dez anos.
Era a frase inicial que sinalava dentro de mim o começo de uma nova crônica.
Desci, momentaneamente da cama. Abrir a janela. A intuição sinalava que era muito tarde. Não atrevi a calcular quanto.
Lá fora, nuvens, lembrando creme chantilly, em cores branco e cinza, estavam estacionadas na paisagem. Contudo, notava-se a cor azul como pano de fundo. Liguei o celular. Imediato o dispositivo, avisa-me mensagem no WhatsApp. Era Elizete. Elizete do Jambeiro. Não. Elizete do Novo Horizonte. Da minha casa minha vida. Era assim que nos comunicavamos no rádio. Uma assídua e participativa ouvinte-leitora do Alacazum aos domingos. Penso:
- Deve ter enviado mensagem por que lembrou do Alacazum.
Estava lá:
- Bom dia! Ao lado a informação do horário. Seis e cinquenta e três.
Será que Elizete ainda está disponível para um bate papo?
Vou provocar com intuito de saber se ela lembrou do Alacazum ou foi simples vontade de falar comigo.
- Bom dia, Elizete! Você enviou mensagem este horário da manhã de domingo, pensando que eu já estava acordada?
Aguardei que a resposta fosse ao meu modo e com referência explícita sobre o Alacazum. De repente o sinalizador do aplicativo, mostra que está digitalizando. E vem a resposta:
- Sim. Por que Deus ajuda quem cedo madruga!
Frase típica de Elizete sem contudo responder os meus anseios. Fazendo implicitamente mesmo sem intenção, critica, a minha prostação nesta manhã de chuva.
- Neste domingo não. Ainda estou na cama.
Assumo a minha preguiça e também o meu esquecimento em não lembrar do Alacazum. Foi o esquecimento que me fez acordar tarde.
- Beleza, bom descanso! Ela responde.
Vixe, com a minha sinceridade, conseguir afugentar a amiga Elizete. Não quero isso. Por primeira vez, em muitas manhãs, converso com alguém via WhatsApp.
- Mais isso não é motivo para não conversar. Estar na cama, não necessariamente é para dormir. Hojé, é um dia raro. Acordei tarde.
- Não consigo acordar tarde! Ela diz.
Até agora, nenhuma palavra esperada. Nenhum indício do que eu queria ouvir.
Como exigir do outro a lembrança, se eu, esqueci?
Mais alguma coisa estimulava para prosseguir instigando.
- Você acorda mais cedo que o Sabiá-Laranjeira?
Um longo silêncio. Logo em seguida o sinalzinho: digitando.
- Qual a data do seu aniversário?
Caramba, nada a ver. A conversa foi para a casa do chapéu. Iniciei por conjugar o verbo esquecer no pretérito perfeito. No entanto é da minha natureza a inconformidade.
Será o Benedito que a amnésia, esta ameba pálida e mortal tenha se infiltrado em minha cabeças nesta manhã de domingo?
- Por que você lembrou de mim hoje? Fiz o último lance na tentativa de acerto.
- Por que estou em casa ainda. Foi a resposta.
É, minhas amigas e amigos, nem tudo saí como desejamos por que quase sempre não é o planejado.
Ainda estou na cama. Passa das dez e trinta e oito. Volto os olhos para a janela. Da paisagem que vislumbro, noventa por cento sobressaí a copa de frondoso pé de jamelão. Os outros dez por cento são nuvens carregadas, cor cinza escuro, branco esmaecido e um rasgo sutil de azul pálido. O sol, aos poucos, intensifica a temperatura. Sem pressa, arrastado.
E eu, voltei a conjugar o verbo esquecer, desta vez no presente do indicativo. Por que brincar de esquecer, doi menos.

Valença, Bahia, 21 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 20 de maio de 2017


Foi em uma dessas noites chuvosas de outono, mais precisamente as últimas semanas que introduzem a chegada do inverno.
Preparava-me para dormir quando aquele friozinho, alertou-me para o uso das meias.
É um conforto para os meus pés, em tempo frio- não muito frio, aqui no Brasil -
Fui até a gaveta, mais só encontrei um par de meias soquete. Quanta decepção.
Por onde andam os meus pares de meias? Pensei.
Revirei os compartimentos, baguncei e nada de encontrar. Devo estar ficando velha. Esqueci que não tenho meias. Fui acomodar-me na cama mais mantenho delineado na cabeça que no outro dia, compraria.
O outro dia chega e esqueço e assim seguiu por toda semana.
Por acaso, nesta sexta-feira, 19 de maio de 2017, entrei em uma loja e lembrei. Uma aventura, encontrar a meia ideal. Tenho exigências por algodão e cores frias.
Nesta loja, tinha uma variedade enorme. Via-se: Meia cano curto, sport basic, aeróbica feminina, sport juvenil, meia soquete.
Nenhuma me agrada. Sou uma pessoa super chata para comprar. Não me seduz facilmente qualquer modelo. Tem que ser o meu estilo. Se não tem, não compro.
Situações adversas, impede-me em ir em outra cidade e fico a mercê do comércio limitado da cidade de Valença, Bahia.
Entenda-se, que é limitado para o meu gosto. No caso especifico das meias não me importa a marca, contanto que seja cem por cento algodão. No meu caso, estou comprando meias que sirvam para dormir. Prefiro atoalhada, cano alto. Na secção feminina, não encontro. Sigo, sem constrangimento para a secção masculina. Nesta, vejo, uma da marca xis, mais com oitenta e três por cento de algodão, dezesseis por cento de poliamida e um por cento de outra fibra.
Outra fibra, para mim, é desconhecida.
O que será?
Vasculhei uma por uma. Foi a maior concentração de algodão que encontrei. Perdir um tempão para a escolha, de um único par de meias para dormir.
Paguei e ainda na loja, transportei-me mentalmente para o segundo país que eu mais amo: Argentina.
Lembrei dos tempos que por lá passei. E recordei dos pares de meias escocesas cem por cento algodão e suas cores: turquesa e branca, marinho e rosa, grafite e azul, cinza e rosa, branco e azul, lilás e verde, cinza e azul e as minhas preferidas: cinza, com estampa escocesa branco e preto.
Saudades de “mi Buenos Aires, querido...”
Lugar, onde mais os meus pés se sentiram calçados.


Valença, 19 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 19 de maio de 2017


No supermercado.
Secção de leites, conservas e enlatados.
Perambulava de um lado para outro olhando as prateleiras na tentativa de lembrar o que precisava comprar. Esqueci a lista.
De repente, os olhos, estes ácidos do consumo, direcionam o olhar para os enlatados. Que vontade súbita de comer sardinhas. Nenhuma referência com o tema futebolístico.
Vontade mesmo de comer manjuas e com farinha. Coisas de Celeste como diz a amiga Irismar. E bota coisa nisso. Nunca me aconteceu esse desejo repentino e olha que já estou fora da temporada fértil.
Tomada pelo consumo, sigo para o lado da prateleira onde estão organizadas as latas. Olho, primeiro o nome das marcas, os preços, a validade, a bula. Sardinha com óleo de soja, com molho de tomate, sardinha com óleo vegetal, com óleo de girassol. Mais destacava, em todas: ricas em ômega três.
Eram tantas marcas com seus predicados, que tive que me abaixar, para o térreo da prateleira.
Foi neste exato momento que percebi, o moço repositor, parado bem ao lado. Prosseguir com a minha pesquisa quando olhando fixamente para uma das latas, visualizo o símbolo que identifica alimentos trangênicos.
- Trangênico, até na sardinha? Falei em voz alta, assustada.
Foi aí que o repositor interagiu:
- Tá tudo contaminado.
- Verdade. Respondi.
Iniciamos um breve diálogo a respeito dos alimentos e este voluntariamente, ajudou-me a escolher um produto que não tivesse a marca do triângulo amarelo.
- Veja este! Ele disse e me entregou a lata
Peguei e iniciei a vistoria. Escute, disse, olhando para o rapaz e começei a ler, teatralizando:
- Atenção: para os alérgicos contém peixe e derivados de soja.
Assim que terminei a leitura do breve texto impresso na lata de sardinha, o moço repositor, falou:
- Você é a mulher do programa de rádio aos domingos?
- Era. Não tem mais. Como você descobriu?
- Pela voz.
- Você gostava?
- Gostava, não, amava. Muito bom.
Prevendo a nostalgia, interrompi o tema Alacazum. Bem parecido aos cortes de entrevistas radiofônicas mal editadas.
- Vou levar esta mesma. Não tem o símbolo, mais tem derivados da soja, que também é trangênico. Não tem tu, vai tu, mesmo.
Ele sorriu, voltou o corpo e a atenção para as prateleiras. Estava em serviço.
Até caminhar para o caixa eu ainda guardava a vontade de comer sardinhas enlatadas com farinha. Do Alacazum, ficou a paisagem do repositor de supermercado, que um dia, sintonizou o rádio e escutou. Escutou e fixou, convertendo em memória. Por que é muito mais fácil, gravar os personagens dos programas televisivos, pelo efeito marcante das imagens do que um programa radiofônico através da voz. O Alacazum, foi uma voz no rádio, que fez morada em muitos corações.

 
Valença, Bahia, 15 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 18 de maio de 2017


Manhã chuvosa de outono.
Quinta-feira, 18 de maio de 2017.
Saio de casa, motorizada.
Chegando no cruzamento da terceira travessa Oldack Nascimento com a rua vereador Marciano da Silva Menezes, a motocicleta, tosse. Esse sintoma, é familiar. Adverte-me que é preciso abastecer.
Visualizo o medidor embaçado. Reserva. Assinala.
Dobro a direita, sentido avenida Aurelino Novais ou avenida Dendezeiros, buscando o posto de abastecimento mais próximo.
Sou recepcionada por um amigo, que além de frentista, vende doces e salgados na praia. Comunicativo, alegre, festivo, otimista, trabalhador, empreendedor, pessoa do bem. Gosto de conversar com ele nas horas vagas. Aprendo sempre com suas histórias de vida. Além da saudação em forma de sorriso, ele foi logo dizendo assim que me viu:
- E Michel?
Para um bom entendedor um nome basta. Ele não me perguntava sobre o meu amigo advogado, nem sobre o documentário da Violeta Martinez, nem o amigo de infância dos meus filhos, quando viviam no bairro da graça.
Este cidadão, estava provocando o diálogo para as questões políticas do Brasil.
Foi aí que lembrei da quarta-feira.
Por incrível que pareça não assistir nenhum noticiário naquele dia. Precisei viajar. Fiquei, por assim dizer, desconectada.
O amigo, frentista estava preocupado, apreensivo. Creio que todos os brasileiros neste momento, estão tensos. Por que os tempos são outros quinhentos. Não existe mais os desinteressados por política ou que este assunto, é reservado aos políticos partidários.
Quando, naquele fatídico dia, o senado, abriu suas portas, para a transmissão televisiva, do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, naquele momento, desanuviou os olhos de todos os cidadão, para a questão da tremenda besteira que fizemos durante todos estes anos de eleições, sem acompanhar de perto as ações dos legalmente eleitos.
Enquanto aguardava o abastecimento da motocicleta, particularisamos informações, em pedaços. Eu e meu amigo. Alí não era hora para uma conversa tão delicada.
Sempre sorridente e educado, desejou-me bom dia. E na saída, despretenciosamente, eu disse:
- O que salva nisso tudo, são os seus sonhos! Referindo-me tanto aos doces que ele vende na praia quanto aos anseios de melhora de vida, investidos diariamente em seu trabalho.
Ele acenou para mim como entendendo. Seja qual for o sentido de compreensão absorvido por ele, o que importa é que sonhos, diferente de formas, sabores, interpretações, aspectos físicos, são sempre sonhos. 



Valença, Bahia, 18 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 17 de maio de 2017


No dia justo em que escolhi para escrever o tema: delicadezas e indelicadezas, acontece no local de trabalho da Pizzaria Os Martinez, um fato interessante que contextualizou perfeitamente os temas.
Eram seis pessoas que chegavam. Um casal, duas moças, um rapaz e uma criança. Aparentemente, membros de uma mesma família. Pela maneira como se comportavam, sem entrosamento com o ambiente, avaliei que fosse a primeira vez que nos visitavam. Aproximei-me para recebê-los. Mostro-lhes, as cadeiras, para que se acomodem.
- Não paga nada para sentar e ler o cardápio!
Eles aceitaram a sugestão.
- Qualquer dúvida, pode perguntar!
Afasto-me, sem contudo, deixar de observá-los. Olhares de curiosidade pelo ambiente, um tempinho maior sobre os quadros distribuidos nas paredes. Riem ao mesmo tempo que cochicham. O homem mais velho, acena para mim. Vou atendê-lo.
- Quantos pedaços tem a pizza família?
- Doze fatias! Respondo.
Confirmam que querem uma pizza deste tamanho e escolhem os sabores. Enquanto escrevo, observo que uma das moças, olha fixamente para mim. É uma mocinha, franzina, rosto alongado, olhos redondos e negros, cabelos crespos. Estava muito bem maquiada, vestido de festa e tacos altos. Os demais também me olhavam com curiosidade mais esquivavam os olhos quando eu os encarava. Peço licença, para ir a cozinha levar o pedido. Quando retorno ao meu posto, percebo que a mulher mais velha, acenava para mim.
- Posso fazer uma pergunta a senhora?
- Sim. Diga.
- A senhora é gringa?
- Não. Sou brasileira, baiana, valenciana. Respondi
- Parece uma artista! Complementou o homem mais velho.
- E esses quadros parece japonês! Disse o rapazinho.
Referia-se aos trabalhos de pintura de Horacio Martinez. A conversa estava tão interessante, que pedir licença para sentar no banco junto com eles e pus-me a observar mais amiúde o rosto de cada um, até alcançar a moça, muito elegante que continuava a me encarar com curiosidade. Pela insistência do olhar, pareceu-me familiar o rosto.
- Eu te conheço de algum lugar?
- Do Supermercado xis. Trabalho lá. A senhora, sempre que vai, me dá bom dia!
Realmente, tenho costume de saudar as atendentes dos caixas quando vou a qualquer supermercado. Sempre pratico gentilezas quando posso.
- Foi por isso, que você veio?
A adolescente, balançou a cabeça afirmativamente Pensei nas delicadezas e indelicadezas que escrevi na noite passada e que se confirmava com esta cena.
Enquanto distribuia os pratos na mesa, conversavamos. Agora, mais descontraídos e confiantes, se atreviam a fazer gracejos.
- Como é mesmo o nome da senhora? Indagou o homem.
- Celeste Martinez. Respondi.
- Eu te vi no Jornal. Disse um.
- Não, foi na televisão! Retrucou o outro.
- Ela é a mulher do rádio. Complementou a senhora, sorridente.
Nada acrescentei ou corrigi. Deixei que pensassem o que quissessem.
Após servir a pizza, perguntei se permitiam que eu fizesse um registro fotográfico. Disseram que sim.
Quando perguntados o que queriam que eu escrevesse na legenda, a mocinha, pediu o celular e escreveu: A Família Sousa, visita a Pizzaria Os Martinez.
Ficaram satisfeitos com a pizza, com o atendimento e com a conversa. Na hora de ir embora, fizeram questão de abraçar-me. Foi quando eu socializei sobre as delicadezas e indelicadezas que escrevi e falei do profeta Gentileza.
-Quem? Perguntou a mocinha, curiosa.
E eu: da próxima vez, eu conto a história.
Sairam. Foram. Partiram para dentro da cidade, onde pessoas são conhecidas por seus afazeres e não por sua sensibilidade em acolher delicadezas.

 
Valença, Bahia, 8 de maio de 2017

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 16 de maio de 2017


Descia a ladeira do porto ou rua Governador Gonçalves, em Valença, Bahia, quando bem em frente, vindo em minha direção, encontro amiga. Se não fosse os anos de amizade eu certamente não a reconheceria. Antes, vestia-se o mais simples possível. Posso dizer com toda certeza que ao estilo minimalista. Sem vaidades excessivas. Agora, até o cabelo, é notado por seu volume e brilho. No rosto, sobrancelhas feitas, batom nos lábios, brincos nas orelhas. No pescoço, correntes finas com pingentes. Inevitável não observar a mudança. E para melhor. Notava-se em sua fisionomia a felicidade. E não foi, com toda certeza uma mudança exigida, por outras pessoas que implicam em querer modificar as outras ou modelar segundo os seus anceios. Esta minha amiga, já tem uma certa idade e nunca ligou para o que as pessoas falam.
- Como você está bonita! Disse-lhe.
- É ?
- Sim, completamente mudada.
- Todo mundo tá dizendo!
O “ todo mundo “ desta minha amiga, resume-se a sua família e a Igreja. As amizades que fez durante os tempos na fábrica, ainda conserva, mas depois da viúvez e da aposentadoria, o círculo se restringiu. Todas as vezes, anteriores que nos encontravámos, o tema girava em torno do único filho e do neto querido. Entretanto naquela travessia da ladeira do porto, onde o vento, corre mais brincalhão, despenteando os cabelos da gente e levantando as saias e vestidos das mulheres, a amiga só tinha conteúdo para falar da vida. Eu que não intensionava bisbilhotar a sua intimidade, contive-me em perguntar o que tem feito ultimamente.
- Viajado. Foi a resposta.
Falava dela e dos lugares que sempre almejava conhecer mais não se animava. Em suas palavras havia uma emoção parecida a um contentamento que duraria a vida inteira. Como a conquista de uma chave especial que abre todas as portas e janelas e não dificulta o ir das pessoas, o caminhar por terras, até pouco tempo distantes e inatíngiveis.
A amiga, falava dessa tal felicidade. Era real. Estava diante de mim uma mulher , mais de cinquenta, que trocara uma indumentária cinza por adereços e cosméticos. Cuidava mais de si. Amava-se.
Que motivo faz uma pessoa solitária, despertar em desfrutar a vida novamente, como na fase áurea da mocidade?



Valença, 9 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez


Publicado no Facebook dia 15 de maio de 2017


Eu, na Pizzaria Os Martinez, quando entra aquele freguês que gosta de conversar. Vez ou outra nos visita, somente com o pretexto do bate-papo comigo. Bebe uma cerveja, come uma pizza e dispara a contar casos. Eu, amo, escutar histórias. Através delas elaboro outras mais mirabolantes.
Nesta noite, após fazer o pedido, foi logo dizendo:
- Hoje, eu não quero conversa. Já me contaram que você anota tudo para escrever.
- As crônicas? Perguntei.
Mais ele não respondeu.
Eu, sair à francesa, deixando-o só em sua mesa, desfrutando tranquilamente a deliciosa pizza.
Do balção eu o observava e ria silenciosamente.
Não sabia que ele estava plugado e tinha contatos de quarto grau.
Um tiquinho de histórias cotidianas que venho contando e publicando sem nenhuma pretensão e já provoca este reboliço na cidade?
Que medo é esse?
Medo , medo, seria Cuíca de Santo Amaro.
Aí sim, você ia ver o que era bom pra tosse!




Valença, Bahia, 15 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 14 de maio de 2017


Novamente encontro com ex-colega de infância dos tempos de escola. Só que desta vez não lembrei nem o nome e nem o sobrenome. Se tem uma coisa que me deixa chateada é esquecer com quem estou conversando. Este, se aproximava com intuito de conversar.
Acionei o compartimento das ações urgentes:
Qual o nome dele?
Pela marcha dos passos e pelo sorriso estampado no rosto, demonstrava apreço por minha pessoa. Chegou, já me chamando pelo nome. Um calabrio passou pelo meu estômago.
E aí camarada cérebro, qual o nome da pessoa?
Nada da cachola responder.
Sim, eu o conhecia. Sabia onde morava, o nome da sua mãe, irmãos. E pelas características físicas: branco, olhos azuis, rosto alongado, cabelos castanhos claros, acercava um semblante famíliar dos tempos de escola.
E o nome, cadê?
Nada.
Empolgado com a conversa, falou-me do seu cotidiano: estava empreendendo. A partir daí os temas variaram: economia, política, relação patrão versus empregado/empregada, religião, a conquista do lugar ao sol e principalmente, com o suor do rosto, quem nem manda a Bíblia, ele disse. Fez questão de dizer que veio da base. Que tudo que sua família conquistou até hoje, foi fruto do trabalho honesto. Quando falava, sentia-se uma satisfação e conforto, segurança e veracidade fruto da vivência.
Rapidamente atravessou-me na mente, ex- colegas, dessa mesma época que ainda hoje encontro na cidade de Valença Bahia e realmente, todos, têem uma realização econômica confortável dentro de suas profissões, preservando a ética e a moral.
Os tempos eram outros?
Não sei.
Quando no trecho que falava sobre sua condição financeira, disse:
- Todos na escola, pensavam que eu era rico.
- Por quê? Indaguei com curiosidade.
- Pelo cabelo tipo playboy, você não lembra?
Até aquele momento, não lembrava nem do nome, nem sobrenome, muito menos do cabelo. Ele prosseguiu:
- Meu cabelo era loiro, comprido. E eu, branco e de olhos azuis. Deu uma paradinha e sorriu.
Não precisava de mais detalhes na complementação do esteriótipo. Lembro muito bem de cada uma destas vertentes: racismo, xenofobia, intolerância religiosa, etc. Inclusive, eu sou vítima, dessas generalizações, devido ao meu jeito de vestir. Muitas oportunidades de emprego perdi por causa deste detalhe. Detalhe?
A velha história da igualdade, descrita no capítulo I , artigo quinto da Carta Magna Brasileira, uma falácia.
O meu amigo, ex-colega de infância dos tempos escolares, estava animado com a conversa todavia para mim, ele continuava, naquele instante, uma incógnita. Eu não lembrava o nome dele. Começei a ficar aflita. Mais o amigo, prosseguia:
- E sabe por que eu não cortava o cabelo? Não tinha dinheiro.
Gente, você não imagina o impacto que me causou ao escutar esta simples frase.
O cara, era pobre que nem eu.
Entenda-se que naquele tempo, nas escolas públicas, conviviam pobres e ricos.
Os ricos, daquele nosso tempo, eram pessoas identificáveis na sociedade: era o filho do dentista, do médico, do advogado, do exportador de cacau e cravo-da-índia.
Eu não lembrava se eu o considerava rico naquela época, por que até aquele instante não recordava seu nome ou sobrenome.
E isso me fez ponderar sobre a Lei de cotas nas universidades públicas, no Brasil, que muita gente critica.
“ O objetivo das cotas é corrigir injustiças históricas provocadas pela escravidão na sociedade brasileira”.
E a pobreza?
Lembro que fiz uma enquete cuja pergunta foi a seguinte: qual a mais difícil travessia: a pobreza ou velhice?
Noventa por cento dos participantes, responderam a pobreza.
A pobreza tem raízes históricas tanto quanto a escravidão. Veja o caso do meu amigo: Branco, loiro, de olhos azuis e pobre.
Mais todos pensavam que ele era rico.
E se o meu amigo fosse preto e pobre?
Será que pensaríamos que ele era rico?
O amigo e ex-colega de escola, nada sabia destas minhas elaborações mentais, ele continuava a falar de sua vida, com entusiasmo. Era para mim que ele relatava os fatos. Sentia-se confiante. E eu o escutava prestando atenção em cada palavra. Despedimo-nos. Ele pegou a via Conselheiro Zacarias e eu a Oldack Nascimento. Na saída, ainda disse:
- Tchau, Celeste Martinez!
E eu?
“ Ora (direis ) ouvir estrelas”.
Sim, todavia, não lembrava o nome dele, entretanto, enquanto caminhava , recordava o personagem Raskólnikov.
Vá entender a mente.
Valença, Bahia, 14 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Publicado no Facebook dia 13 de maio de 2017

Para o irmão, Jósenildo Ferreira


Questão de minutos após ter postado a minha crônica na página virtual do facebook, recebo notificação em forma de comentário do meu irmão Jósenildo Ferreira.
- Esse seu amigo, só pode ser Goy, do finado, Maçú.
Sim, ele foi certeiro em sua análise. No texto, eu relatava um acontecimento no supermercado que envolvia um conterrâneo da Gamboa – sem contudo citar o nome – um detalhe no entanto dentro da narrativa ou seja uma palavra, foi suficiente para romper o anonimato. A palavra : adorooo!
Primeiro, pensei em ocultá-la depois optei em declará-la, com intuito de uma homenagem a este amigo. Tinha certeza, que qualquer pessoa que o conhecesse, saberia. Dito e feito.
Iniciamos diálogo na janela do messenger e indaguei do irmão que critério teve ele para identificar o protagonista da história.
- A palavra: adoroooo! É a única dele.
Confirmava a minha intenção e senti-me bastante satisfeita com o exercício diário. Quanto mais escrevo mais habilidade em brincar, tal jogo de xadrez.
- Gosto muito das suas crônicas.
- Mais tem gente, que está fugindo de mim para não virar crônica. Falei.
- É bom virar crônica.
- Por quê?
- Por que está sempre na mídia.
Curioso como meu irmão, avaliza o conteúdo dos meus textos e a embalagem onde eu os deposito. Ele sabe, seja intuitivamente ou prática na leitura que meus textos são autênticos e mapeam situações cotidianas de uma cidade, quiçá de um território. Logo em seguida, ele diz:
- As suas crônicas são saudáveis.
Enche-me de entusiasmo saber que meus escritos energiza a alma de alguém em um contexto onde o jornalismo só tem trabalhado para denegrir a imagem das pessoas. Quando as minhas crônicas ganharem corpo de um livro, espero que possa fazer parte da cesta básica do brasileiro, como idealizou Wally Salomão.
- As suas crônicas está virando crônica.
Quanto dinamismo e criatividade na fala do meu irmão. Eu não conhecia este seu lado poético e humorístico. Como foi bom ter iniciado esta secção de crônicas diárias. Só assim tive a oportunidade de ler seus comentários e travar breve bate papo.
- Cuidado, que você pode virar crônica! Disse-lhe
- Claro que seria bom! Ele respondeu.
E se impolgou em relembrar algumas já publicadas. À medida que falava, nomeava-as conforme seu entedimento:
“ Aquela que você fez da ex-colega; Essa de Goy”
Eu não intitulei nenhuma crônica entretanto meu irmão fazia isso com a maior naturalidade, em uma identificação literária. Quanta felicidade ele me ofertava, despretenciosamente. Assim, minhas crônicas, à medida que são lidas, ganham dinamismo, novas leituras e incorporam-se em novos relatos.
- Só pelo fato de estar neste momento dialogando com você, mano, já valeu ter iniciado este exercício. E ele:
- Eu só presto atenção no que me acrescenta.
Fiz questão de tonificar a frase tal eco na caverna. As minhas crônicas são saudáveis e acrescentam no sentido de melhorar a vida das pessoas. As minhas crônicas, são alimentos. São palavras para entreter e através delas, o Alacazum, vive.
Valença, Bahia, 13 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

 Publicado no Facebook dia 12 de maio de 2017


Sexta-feira, avenida Alisson Magalhães de Freitas, na cidade de Valença Bahia. Estaciono devidamente, em frente a estabelecimento comercial, a minha motocicleta, marca Kasinski 50 cilindradas. Vou às compras. De repente um automóvel, marca Ford Sedan 2017, expressamente avantajado em sua forma e volume, para ao lado da minha moto, ultrapassando a faixa de estacionamento permitido e ocupando uma parte da rua transitável para os veículos.
Uma mulher, vestida com trajes de acadêmia, saí, mãos dadas com uma criança. Segue pela calçada descontraidamente.
Imediato dois homens aproximam-se de mim e pede para que eu retire a minha moto por que eles vão descarregar o caminhão. Esclareço que tenho direito a vaga e não estou atrapalhando, ao contrário do carro alí parado. Poderia facilitar um pouco chegando a moto, desde que aquele carro também saisse. Eles nada disseram e retiram-se. Enquanto isso o caminhão congestionava a rua. Era visível a fila que se formava.
Enquanto a mulher, proprietária do veículo de luxo não chegava, os homens do caminhão, começaram a descarregar sacos e sacos de farinha. A tensão aumenta, pois escuta-se buzinaços e xingatórios, obrigando o caminhão a descongestionar a via pública, seguindo mais adiante, até a esquina entre a avenida Alisson Magalhães de Freitas e a rua Jaime Guimarães.
Até o momento, nada da mulher chegar, muito menos eu entro para fazer as compras. Quando felizmente, a proprietária do veículo, aproxima-se e sai, eu, sem precisar que ninguém me diga o que fazer, comprimo a motocicleta entre outros com intuito de deixar o caminhão estacionar devidamente para a descarga.
Enquanto entro no estabelecimento comercial, analiso o acontecimento. Como as relações de poder que envolvem as nossas vidas, modificam o nosso modo de raciocínio. Foi mais fácil para os trabalhadores exigirem de mim que cedesse a vaga do que reclamar com a mulher. E eu estava no meu direito e devidamente estacionada.

Valença, Bahia 12 de maio de 20117 Celeste Martinez

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Crônica cotidiana de Celeste Martinez-6

- E aí, minha conterrânea!?
O supermercado lotadíssimo e ele gritou-me proferindo esta simples frase para que todos ouvissem, quebrando as regras de etiquetas vigentes. Eu o saudei, acenando, enquanto me organizava na fila do caixa que dizia até no máximo 10 ítens. Ele aproximou-se. Carregava dois capacetes, em uma das mãos e na outra uma sacola plástica, deste tamanho, contendo carne vermelha. Estava tão pesado, que seu corpo inclinava para o lado. Baixinho, semi desprovido de cabelos, amigo dos tempos em que vivia na Gamboa do Morro Cairu Bahia. Sempre foi muito alegre e festivo. Todos que o conhecem gostam dele. Trabalhou desde cedo na comercialização de mariscos. Chegou a ter peixaria em Valença. Formou família e descasou. Agora vive, como ele mesmo diz: Nas cachaças. Curte uma pinga no pé do balção. É dele a expressão: Adorooooooo!
- E a Gamboa, continua linda? Perguntei-lhe.
- Agora eu sou visitante. Muita gente daquele nosso tempo já se foi. Não conheço mais ninguém. Disse e seu rosto se expressou com tristeza.
- Visitante nativo. Acrescentei.
- E você, quantos anos que saiu de lá? Perguntou-me
Calculei momentaneamente uns trinta anos. E ele:
- Eu tenho quarenta anos de Valença.
A fila emperrara e ele impaciente, devido ao peso que carregava, de repente olhando para trás, disse:
- Venha, cá, Bié!
Um ancião, franzino, com chapéu de vaqueiro, sandálias de tiras e roupas surradas, aproximou-se, bem, bem lentamente. Olhei para o homem e pareceu-me conhecido. Perguntei:
- Ele é da Gamboa?
- Não. É daqui de Valença, da rua da Triana. Meu companheiro das cachaças. Tá vendo aqui? E desviou os olhos para a sacola de carne que segurava em uma das mãos. É dele! Tô fazendo um favor. Até disse, que levava ele de moto. Ele é que não quer.
Falava em um volume de voz que excedia os cinquenta decibéis permitidos. Todos os olhares em nossa direção e alguns sorrisos.
De repente, umas quatros pessoas que estavam posicionadas em minha frente, optaram por dar passagem a este meu amigo, com uma sacola, deste tamanho, cheia de carne. O senhor o acompanhava, arrastando os pés e olhando para o chão com medo de cair.
- Tchau, minha amiga! Ele disse.
Só balancei a cabeça e esbocei um sorriso. Naquele momento, por minha mente passavam vários capítulos da infância em Gamboa. E me transportei para a rua de cima, lugar onde este meu amigo morava.
Enxerguei o campo da bola, a discoteca de Cabinho, aquele homem magrinho com andar compassado, chamado Zezinho Galo, a pequenina delegacia de polícia, Baco, Alfonso, o prédio escolar bem em frente a praia, a casa de Paizinho ( o músico) Tita, Norma, Dona D' Hora, Nilena ( e seu amor exarcebado aos filhos e filhas ), professor Júlio com sua elegância e cordialidade ( ainda escuto o tom grave da sua voz ) professora Lilita, sempre muito educada, prestativa e severa, a sorveteria de... como era mesmo o nome daquela senhora?
Ah! Gamboa, quanta saudade!

Valença 10 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez-5

Eu, novamente na coluna vertebral do Calçadão, na cidade, de Valença, Bahia, quando alguém gritou meu nome:
- Celeste!
Seguia tão apressada que não notei a conhecida ex-colega de infância. Respondi-lhe pronunciando seu nome completo como no tempo de escola, em que emparelhados ordenadamente, um atrás do outro, religiosamente, a professora, fazia a chamada, pronunciado o nome e sobrenome.
A colega, imediato, entendeu acrescentando o nome de casada. Rimos. Descontraimos risos e mais risos.
- Ah! Tempo bom! Disse
E ela suspirou como quem aspira lembranças. Logo em seguida deixou escapar mais um nome de colega. Ao falar, ela acentuava a voz com aquele tom de citação. E eu a acompanhava na brincadeira, dizendo outro nome . Nos intervalos, sorrisos. Muitos.
- Lembra de fulano, filho do doutor xis, metido a gostosão?
-Não lembrava.
- Morava ali na rua das casas, número das portas”.
Novos sorrisos.
- E os intervalos para comprar o picolé de Magí?
- Ainda lembro o sabor chocolate!
Tinhamos muito a recordar se não fosse a rotina a lembrar as tarefas ainda por fazer. A colega insinuou a direção que tomaria e prosseguiu. Seguimos juntos uns cem metros até tomar rumos diferentes. Um curto tchau selou o fim dos sorrisos, das lembranças. E a infância, mais uma vez voltou a trancafiar-se dentro da gente.

Valença, Bahia, 5 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez

Na Pizzaria, trabalhando, quando o telefone, toca.
- Pizzaria, Os Martinez, boa noite!
Do outro lado, voz feminina, lânguida, fininha, delicada, longínqua, se identifica dizendo o nome.
- Quem?
E a voz, terna, tranquila, repete.
Eu, congestionada a audição, pelos longos dias acumulados da minha existência, tenho dificuldade em decifrar a palavra.
Tenho vergonha, no entanto, em perguntar novamente e me calo por nanos segundos. Tempo suficiente para a pessoa, bastante perspicaz, perceber meu embaraçamento. Sou fulana, ela diz, amiga de sicrana. Esta pista foi suficiente para decifrar o enigma da voz e consequente vislumbrar o rosto da pessoa que falava comigo naquele instante.
- Ah! Como vai? Desculpe-me, estou ficando surda!
Do outro lado da linha, escuto gargalhadas.
- O que deseja? Pergunto.
Mais antes que a pessoa responda, uma outra, insiste em falar:
- Tenho lido as suas crônicas!
Para mim, foi surpresa saber que esta, lia meus textos. Na página virtual do facebook onde publico, não vi nenhum sinal de curtição ou comentários. Várias pessoas, lêem, sem contudo expressar publicamente, pensei.
Atenta, de que alí é um estabelecimento comercial e de que eu tenho que ser rápida no atendimento para não congestionar a linha telefônica, detenho-me no assunto da pizza.
- O que você deseja ?
Acontece que a segunda pessoa, do outro lado da linha, muito sorridente, insiste no assunto e impede momentaneamente a realização do pedido.
- Olhe, eu estou fugindo de você na rua para não virar crônica!
Não sou de rir mais esta frase e o modo como a pessoa falou, fez explodir dentro de mim um sentimento de bem-aventurança. Sorrir gargalhadas. Elas também.
- Já virou! Eu disse.
Desta vez foi ela que não escutou e pediu para que eu repetisse:
- Diga a tua amiga que ela já virou crônica!
Novas gargalhadas, escuto. Ao mesmo tempo em que a pessoa que solicitava pizza repetia para a outra o que eu havia dito.
Fico feliz em saber que as minhas crônicas, têem provocado em muita gente curiosidade na leitura e apreciação geral. Agora o que eu nunca imaginei foi que causaria receio em algumas pessoas “para não virar crônica”.
O que isso significa?
Será que foi uma brincadeira desta minha amiga ou a preocupação é geral?
Se avexe não, viu?
Contrário aos contos do fantástico maravilhoso, em que sapos, viram príncipes, no mundo encantado Alacazum, nem todas as pessoas viram crônicas. Em meios à palavras que nomeam coisas e nomes próprios, existe as expressões matemáticas onde o uso de incógnitas, revela muito mais o sujeito.Finalizei a venda da pizza e um afetuoso e cordial boa noite, selou este momento descontraído no trabalho. Após desligar o telefone eu ainda esboçava no rosto, um largo sorriso de satisfação . O coração palpitava de alegria e ansiava por chegar em casa para rapidamente escrever mais uma crônica.
Mais intimamente matutava: O que estaria pensando a amiga neste instante?
Valença, Bahia, 9 de maio de 2017 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez-3

Cruzamento entre as ruas Ruy Barbosa, Quintino Bocaiúva, Praça da República, na cidade de Valença Bahia.
Final de tarde.
Quando vi já estava o tumulto bem na esquina da sinaleira.
Como diz o velho ditado: peguei o bonde andando.
Valença, por mais que seja a maior cidade da costa do dendê continua a manter o tradicional costume interiorano de por qualquer coisa juntar gente para “espiar”.
Eu não tinha do que me furtar com a cena. Um carro Volkswagen Gol, semi-usado, com a frente estraçalhada, estacionado enviezado na via pública antes da faixa de pedestre e um outro carro da Nissan Pic up 4 x4 logo atrás, também parado.
Um homem, exaltado, aos berros, dirigia insultos a um garoto, magrinho, pálido e assustado. O menino tentava acalmar o homem que não queria escutar. O tempo inteiro falava que ia chamar a polícia. Pela forma como se expressava, parecia ser uma autoridade. Exigiu que o menino, descesse do automóvel e este obedeceu. Tremia de medo.
Parei.
Iniciei minha elaboração mental sobre o fato alí apresentado. Escutei as palavras sussuradas de alguns encostados nas paredes e outros que diziam que não queriam se “meter”. Evidente que se tratava de um acidente.
Só um detalhe não se ajustava ao fato: o carro danificado estava parado em frente ao que aparentemente era o culpado. Pela lógica da via pública, alí naquele trecho da cidade é contra-mão quem vem da Quintino Bocaiúva, sentido Teixeira de Freitas.
Entretanto o mais exaltado, era justamente o homem do carro que estava destroçado e parado neste sentido.
Intrigante.
Possa ser que o cidadão, que teve o seu automóvel danificado, percebendo que o motorista do outro veículo era um garoto sem carteira de habilitação, tenha se aproveitado da situação para tirar vantagem. Uma tese mirabolante eu articulava.
A esta altura o trânsito congestionou por que justo o homem que bradava contra o menino parou para discutir no meio da rua.
Aliado a isso os dois carros estavam imobilizados.
Evidente que o fato poderia me render uma bela crônica cotidiana mas... o que eu poderia escrever diante de um fato pela metade?
Lembrei de certa ocasião em Buenos Aires, Argentina, quando saía da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, UBA, seguindo entre as ruas Puán e avenida Rivadavia quando presenciei um reboliço com presença da polícia e nenhum transeunte parava para bisbilhotar. Contrário, apressavam ainda mais os passos.
Só depois fui saber que na Argentina qualquer pessoa que se aproximasse poderia servir de testemunha. Por isso o distanciamento.
Observar cenas como esta, podem me render belos textos entretanto naquele momento estava indo resolver assuntos técnicos da pizzaria, não podia ficar por mais tempo alí para saber o desfecho do acontecimento. Sair. Nem olhei para trás para não ser arrastada pela curiosidade. Quando retornei, passando pelo mesmo local, todos os elementos representantes daquela cena, desapareceram, ficando apenas a rua, discreta, calada.
Valença, Bahia, 4 de maio de 20117 Celeste Martinez

Crônica cotidiana de Celeste Martinez-2

Quarta-feira, chuvosa, dia 3 de maio de 2017, sigo para a Caixa Econômica Federal, localizada à rua Governador Gonçalves, no Calçadão da cidade de Valença Bahia.
É a primeira vez que vou a este estabelecimento bancário para efetuar pagamento de documento direto no caixa. Após organizar os objetos metálicos no compartimento, adentro pela porta eletrônica. O banco estava lotado. Quase todas as cadeiras preenchidas. Encontro conhecido e peço ajuda. Este me indica que devo, primeiro, pegar senha e fez questão de acompanhar-me até o local. Retorno deixando os mesmos objetos no compartimento e saindo por outra porta. A menina me entrega a senha de número 63 . Retorno. Uma cadeira disponível. Sento. Pergunto a mulher ao lado como funciona e esta me explica que o segurança, era o responsável pela organização no atendimento. Ele chamaria meu número no devido momento.
Acomodei-me e imediato lembrei do exercício mais prazeroso para mim nestes locais de espera. O livro. Abro a minha bolsa e só encontro cadernos.
Cadê a caneta?
Nada.
Havia esquecido.
Nem um toco de lápis.
A angustia tomou conta de mim. Nem tico nem teco. Respiro fundo. Por algum motivo eu estava alí.
Começo a inspecionar o local. Vislumbrar rostos conhecidos. Eis a professora xis, que maleavelmente se locomovia, buscando acomodação. Dirigiu-se aos quatro assentos preferenciais. Apenas uma vaga. Sentou-se. Pus a analisar a atitude da professora em ter ocupado uma das cadeiras. Esta não tinha nenhuma limitação em locomoção, não era idosa, nem obesa, nem estava grávida. Levanto-me para ler a informação impressa na capa que envolvia os assentos. Estava lá, escrito: Ausentes pessoas nestas condições, o uso é livre. Penso: Quantas vezes formulamos teses sem fundamentos? Quantas vezes nos precipitamos nos julgamentos? Apenas uma iniciativa de investigar os fatos, garante a fiel notícia. O mesmo acontece com os pseudo-jornalistas, que preocupados em quantificar audiência, esquecem de elucidar os fatos antes de divulgar nas mídias, intensificando a violência.
De repente em minha frente, o sobrinho Anderson, sentado em uma das cadeiras, com os olhos petrificados no segurança do banco. Aguardava sua vez. Não notou minha presença. Continuei garimpando informações. Já articulava uma crônica. No íntimo, ainda estava decepcionada comigo mesma por ter esquecido a caneta. Tinha certeza que muitos detalhes eu não reteria na mente. Abrir a bolsa novamente, pego o celular.
Pra quê?
Não tenho costume de Whatsapp, tão pouco Instagram.
E acontece o inusitável, na tela vejo a palavra: bloco de notas.
Eureka, como diria , Arquimedes de Siracusa, achei a solução.
E alí mesmo, pus-me a desvendar como se utilizava este recurso. Anotei alguns pontos que serviriam para a escrita.
Quantas vezes deixamos passar oportunidades de aprendizagens?
Inúmeras.
A alegria, saltita.
- 47! Grita o guarda.
Sessenta e três menos quarenta e sete, calculo mentalmente. Falta dezesseis. Não é muito.
A senhora ao meu lado, levanta-se para ser atendida. O lugar é ocupado por outro professor, que me sauda. Levanto-me para falar com o sobrinho que vinha com fisionomia triste. Pergunto o que aconteceu e ele diz que teria que retornar ao banco outro dia. Partiu. Outro conhecido, no mesmo instante fala comigo e inicia o relato de que é assim mesmo. Permaneci em pé dialogando com ele.
-56! Bradou novamente o guardião do banco.
Aproximava-se a minha vez. Olhei para as horas impressas no celular: Onze horas e cinquenta minutos. Calculo. Cheguei às dez e quarenta e um. Uma hora e onze minutos de espera. Lembro da lei dos quinze minutos. E novamente a matemática insiste em contabilizar o tempo.
Quantas pessoas foram atendidas desde a minha chegada?
Será assim que contabiliza o tempo na lei dos quinze minutos por pessoa?
- 62! Grita o guarda.
Posiciono-me bem a frente. Enfim sigo para o caixa. Entrego, à moça, os documentos a serem pagos. E esta, após avaliar, me diz:
- Falta o código. Sem este número não existe transação bancária. Vá falar com o seu contador. Depois volte aqui. Não precisa pegar fila.
Sair. Cronos marcava o caminho para as doze badaladas. Mesmo assim, caminhei até a rua General Labatut.
- Tem que procurar o órgão competente, fala a menina da Contabilidade. E indicou-me a direção.
- Agora, já não atende. Só às quatorze horas. Ela disse.
Segui para casa. Teria ainda que fazer almoço.
Enquanto a tarde, ainda chuvosa, acenava para mim, eu analisava o ocorrido. Para alguns, um dia tedioso no banco. Tempo perdido. Eu, com mais de meio século de existência estou aprendendo a tirar proveito das desgraças e ter vantagem com o exercício da escrita. O jogo do contente que nos ensina Pollyanna de Eleanor H. Porter. A vida, é um campo aberto sem cancela, livre. Nós, é que marcamos as terras, impondo limites.
Valença, Bahia, 3 de maio de 2017

Crônica cotidiana de Celeste Martinez-1

Crônica cotidiana de Celeste Martinez
Naquele final de tarde, após longas horas e em diferentes locais procurando rúcula sem encontrar, estava por desistir, quando em um daqueles vendedores ambulantes, posicionados à rua doutor Rocha Leal, na cidade de Valença, Bahia, encontrei tão procurada verdura. Ressaltando: verdinhas. Comprei três maços.
Quando adiantei os passos em direção à travessa homônimo, uma mulher - fisionomia de menina – também da economia informal, posicionada no passeio, bem na esquina, fez sinal com a mão em minha direção. Disse:
- Faz favor!
Fiquei na dúvida e para certificar-me olhei para os lados e para trás. Não tinha ninguém com intenção de falar com a mulher. Era comigo mesmo. Aproximei-me.
- Sim. Disse.
- É verdade, que o Alacazum acabou? Perguntou a mulher.
Confesso que fiquei surpresa, não com a pergunta, por que ultimamente, desde a saída do Alacazum do ar, o que mais tenho feito é dar explicação ao povo. O que me impressionou foi a jovezinha, trabalhadora, com cara de menina, franzina, desconhecida até aquele momento, com sua vozinha fina e delicada, me chamar para saber o paradeiro do Alacazum. Quando lhe confirmei, proferindo a palavra sim, que era verdade que o Alacazum estava fora do ar, esta confirmação, não teve a mesma tonalidade de perda, das anteriores respostas que havia dito no decorrer destes três meses. Contrário, encheu-me de alegria por saber que o Alacazum está despertando saudade em muita gente.
Podem calar o Alacazum, impedindo sua propagação através das ondas eletromagnéticas, mais não conseguirão trancafiar a voz de cada cidadão que teve a oportunidade de escutar por alguns minutos, algumas horas, alguns domingos e durante dez anos.
Ao ser questionda por mim a respeito do motivo da pergunta, disse:
- Quem me disse foi um amigo que vende caranguejos aqui. Ele também escutava.
- E você, me escutava?
- Sim. Até ganhei uma caixa de chocolate. Fui buscar na sua pizzaria.
- Qual o seu nome?
- Tatiane.
- De que bairro?
- Tento.
De repente me reconheço fazendo as mesmas perguntas quando estava no rádio enquanto falava com os ouvintes-leitores, via telefone. Uma estranha felicidade abraçou-me. Aquela mulher, com cara de menina, que falava comigo ao mesmo tempo em que guardava suas mercadorias, tirou um tempinho para assuntos culturais. Naquele momento a mulher estava pensando nas palavras para entreter. E ela prosseguiu falando:
- Era bom por que fazia a gente pesquisar. As vezes eu acertava outras não. As vezes eu dizia e quando era no final a resposta era igual. Eu gostava.
- Eu também. Repetir descontraidamente.
Ela quis saber por que motivo de se tirar um programa tão bom. E novamente tive que repetir que fui eu que decidir sair por que não aceitei que o dono da rádio se intrometesse no conteúdo do Alacazum. A expressão dela foi:
- Ah! Seguido de um: Que pena!
E para conclusão de bate papo, fiz questão de cumprimentar-lhe com um aperto de mão e agradecer a gentileza e a sensibilidade da lembrança. Virei as costas e prosseguir. Mais creiam, que dentro de mim, uma paz se instalou e também uma certeza de que as sementes de amor que o Alacazum semeou em cada coração, está florindo. Se não temos mais a possibilidade de comunicação via rádio, algo novo, grandioso, surgirá. Por que nada é para sempre.

Valença, 3 de maio de 2017 Celeste Martinez

terça-feira, 11 de abril de 2017

O Calçadão de Valença Bahia


A respeito da rua Governador Gonçalves, especificamente a faixa chamada: Calçadão, na cidade de Valença Bahia.


Estava comprando caquis e por sinal, belíssimos, quando uma conhecida, aproximou-se e sussurando em meu ouvido, disse: Eu não compro nada que se vende no Calçadão, pois não concordo com esta bagunça que aí está. Escutei-a e nada disse para evitar constrangimento e não deixei de comprar os frutos. Agora em casa, analisando o fato, em minha opinião, aquelas trabalhadoras e trabalhadores informais, que alí estão, não são os “culpados” pela desordem deste espaço urbano. Se alí estão, é com consentimento da gestão municipal. Deixar de comprar qualquer mercadoria, vendido por elas e eles não mudará a bagunça que se instalou naquele local, desde longas datas.



Valença, Bahia, 8 de abril de 2017 Celeste Martinez

Relato em uma bela manhã de verão



Manhã confortável de verão . Eu em um bairro nobre da cidade de Valença Ba indo para a minha fenomenal aula de inglês, quando escuto a voz de um homem em minha direção:
- Bom dia, escritora!
A rua estava deserta, mesmo assim olhei para todos os lados, para certificar-me se o rapaz estava falando com outra pessoa. Era para mim. Ele me chamou "escritora". Meu coração palpitou de alegria. Tudo que eu sempre sonhara escutar. Aproximei-me para saudá-lo e indagar de onde este me conhecia.
- Da Uneb Campus XV. Ele respondeu. E complementou: do sarau que fizeram lá.
- Você, não é daqui. Afirmei, confiada na fisionomia e os modos no falar e tratar.
- Sou de Jequié.
- Prazer falar com você, eu disse.
E este, entrando no carro, respondeu:
- Prazer foi meu, Celeste Martinez
Quando escutei o rapaz pronunciar meu nome, naquele momento, eu compreendi que a saudação ia além da cordialidade. Sim, eu sou a escritora, Celeste Martinez.

Valença, Ba 15 de fevereiro de 2017 11:51

Crônica de Celeste Martinez

Crônica de Celeste Martinez
Estava na Pizzaria Os Martinez, trabalhando. Aproximava-se a hora de encerrar o expediente quando chegou o senhor Benedito, da Bolívia, fã do Alacazum.
- Olá, dona Celeste.
- Boa noite, senhor Benedito. O que deseja?
- Parei para saudar a senhora.
- Obrigada.
- E aí, por que nunca mais eu te ouvi?
Estava se referindo ao programa de rádio Alacazum. Questão de micros segundos abstrair, apenas as palavras “nunca mais”. Tal o corvo de Poe. Para o senhor Benedito, duas semanas, digo dois domingos, de ausência do Alacazum equivalia ao “nunca mais “ . Uma angustia bateu às portas do meu coração. Eu teria que lhe participar. Dizer a verdade entretanto arrisquei por em prática a assertiva que diz: para cada pergunta uma nova pergunta.
- O senhor não sabe?
E para minha surpresa, ele responde:
- Claro que sei!
E deu uma pausa com a fala em tropeços.
- O que o senhor sabe, senhor Benedito?
Imediato:
- Que a senhora disse que não ia fazer mais o Alacazum naquela rádio.
Então alucinou-me a compreensão.
Qual a intenção daquele homem ao indagar-me algo que já sabia a resposta?
Ele não era uma pessoa ruim, contrário, demonstrava generosidade quando falava da mulher e filhos. Sempre que me visitava na Pizzaria, trocava figurinhas a respeito dos temas tratados no programa de rádio. Acrescentava informações. Exímio conhecedor da história da cidade de Valença Ba. Disse-me certa vez que foi com o Alacazum que ele conheceu um parente. Memória fantástica. Conta todos os detalhes. Quem ligou, quem deixou de ligar, quem fez falta. Ansiava ganhar a caixa de chocolate e ganhou. Noutras vezes lhe faltava o crédito no celular e ficava aflito. Finalmente prefiro dizer diante dos fatos que o senhor Benedito, da Bolívia, quer puxar conversa, prolongar o tempo. Que ele sofre com a solidão de não ter com quem falar. Porém, eu não posso ficar alimentando a esperança diante da realidade já consumada. Penso: tenho que lhe dizer de uma forma definitiva. E me escapa da boca a palavra:
- Acabou!
Pronto, saiu. De minha garganta como uma lança afiada direto para o coração daquele homem. Eu estava sentada e ele em pé quando notei o seu semblante se modificar, empalidecer. Movimentou a cabeça de um lado para o outro, cabisbaixo, passou as mãos pelos cabelos e soltou novamente o questionamento inesperado:
- E agora?
Ele não se conformava. Exigia de mim a resposta que eu não tinha. E eu, sem saber mais o que dizer por que já me sufocava a ansia por chorar, balbuciei palavras desconexas.
- Como é que se diz “ quem tem juízo obedece”?
Eu estava tentando me recordar do provérbio e este compreendeu perfeitamente o meu raciocinio e consertou:
- Manda quem pode. Obedece quem tem juízo.
- Pois é. Eu disse.
Foi aí que o silêncio abraçou nós dois. Os demais elementos em torno da pizzaria perderam a identifição enquanto seres inanimados. Naquele momento, era só eu e o senhor Benedito da Bolívia. E na inevitável razão de por quê existe a vida, o viver, o prosseguir, eu vi, em câmera lenta, o corpo de um ser humano, sair, devagarinho, cambaleante, para dentro da noite do “nunca mais “.
Valença, Bahia, 17 de fevereiro de 2017 00:52 Celeste Martinez

Agradecimento pelas mensagens ao dia do meu aniversário

Agradecimento
A gente quando nasce, recebe de presente um nome, uma família, uma religião, um clube, etc. , contudo, ninguém recebe de presente uma amiga ou amigo. Amiga e amigo, é um presente do nosso livre arbítrio. O mais extraordinário é que podemos eleger e a escolha está dentro dos preceitos das nossas convicções, das nossas afinidades. Quando criei o programa radiofônico Alacazum palavras para entreter, este me deu a oportunidade de conquistar amigas e amigos através das ondas do rádio. Foi fantástico a receptividade, a sintonia. Nos abraçavá-mos sem precisar da materialidade dos corpos naqueles 60 minutos mágicos de comunicação, diálogo. Por isso, sou feliz por ter “um milhão de amigas e amigos “, e que neste dia 30 de março de 2017, dia do meu aniversário; foi demonstrado primeiramente pelas amigas Márcia Gonçalves e Susana, que me ofertaram uma manhã inteira em suas companhias, demonstrado nas palavras de carinho, fixadas na minha página do facebook, nas janelas de diálogos, nas mensagens via telefone, demonstrado pela amiga Jéssica (que trabalha na Pizzaria Os Martinez ) que criou um mural com flores de palavras-antídotos; no abraço forte do Betinho Comandante em plena rua de Valença Ba, que soube através das ondas da Rádio Clube de Valença AM no programa do amigo Dorgival Lemos, que a amiga Cecé, anunciou por que sua avó Dona Alice Antonia Pereira – que vive no bairro do Tento e que fez parte do Alacazum por muitos anos , alegrando as manhãs de domingo com sua voz que dizia “ Parabéns para você meu amor, marquei a data no meu calendário. Desejo que você seja feliz, parabéns pelo seu aniversário. Hoje o dia é tão lindo e está sorrindo e um presente eu vou lhe dar. Eu vou lhe dar meu coração com a maior satisfação, vamos festejar “ aniversaria na mesma data que eu e principalmente na mensagem escrita pela filha Violeta Martinez quando disse: “ Hoje é dia dela! Ser humano mais que especial! Te amo mãe! E sua neta Dindi também! Vc é a grande referência que temos de grandeza, caráter, sensibilidade e amor! Feliz aniversário!”. Esta é a certeza de que não passamos inultimemte nesta geográfia. Diante de tão imensa expressão de amizade vindo de muitas partes do Brasil e exterior, penso que sou uma pessoa muito privilegiada em receber neste dia especial em minha vida muitas partículas de luz para iluminar o meu caminho e não desistir de viver. Obrigada.
Celeste Martinez, 30 de março de 2017 Valença Ba

Mensagem para o Alacazum palavras para entreter

Mensagem de um ouvinte-leitor, deixado na página virtual do Alacazum, em relação a retirada do programa do ar


"Todos nós nesse momento que te escrevo estamos bastantes triste com essa decisão do pessoal da rádio rio una f.m. tirar esse grande programa do ar e deixar esse vaco em nossos domingos de cada mês e durante o ano todo ainda não me acostumei com esse mal que me pegou de surpresa e se não fosse o conhecimento que tenho das mudanças dos tempos e tudo que estamos enfrentando talvez fosse parar no hospital mas vamos dar uma volta por cima de tudo isso nos aguardem."

Poema escrito pela professora Jamile Guerra

 Texto escrito pela prima Jamile Guerra para o meu aniversário, dia 30 de março de 2017 e publicado na página do Facebook

Para você, prima Celeste Martinez.
Casou-se com a POESIA, sua eterna companheira. Juntas varam noites, observam o amanhecer e o anoitecer, encantam-se com as plantas, com o mar, com o céu e com a beleza dos animais... indo mais além, observam incessantemente o Universo e toda a sua grandeza.
Uma transfere à outra, seus anseios, seus medos, suas decepções, angústias, a magia e o encantamento ao ver e admirar o BELO.
Para qualquer lugar que vá, a POESIA a acompanha, para onde,ou para o que quer que olhe, é a POESIA que ela vê. Ao observar cada pessoa ao seu redor, há sempre um toque de POESIA... e ao deitar ,com certeza ela, ( a POESIA),está lá, ao seu lado, descansando, invadindo seus sonhos, para que ao nascer do novo dia, elas possam, mais uma vez colocar as ALIANÇAS e juntas seguirem para a próxima jornada.
Ah ! Se todos os casamentos fossem assim: tão únicos e verdadeiros, regados à tanta cumplicidade, afetividade e fidelidade!!

Cé , seriam tantas as palavras que usaria para qualificá-la, mas apenas a POESIA seria capaz de descrevê-la com maior perfeição.
Feliz Aniversário!!

sexta-feira, 10 de março de 2017

Texto I autoria de Celeste Martinez




Texto I

Desde muito cedo somos educados a distinguir padrões de beleza, cor, dimensão. Esta subjugação de paredes que compõem a dita “pirâmide” das classes sociais, é herança desde os tempos das conquistas.
Os nomes considerados como grandes conquistadores, tipo Ptolomeu, Alexandre III da Macedônia, Napoleão Bonaparte, Júlio César, Gengis Kan, etc. Detiveram o poder econômico por que investiram no conhecimento. Necessário foi a escravidão para que estes alcançassem seus objetivos. A ganância também estava atrelada ao poder como única forma de preservação da eternidade. Reconhecemos, atualmente ( 2017 ) que isso não garantiu a perpetualidade. A terra foi desgastada e encontra-se imprestável para a sobrevivência das espécies vivas. Por isso, esta mesma ganância que traduz a aspereza do egoismo e egocentrismo planeja o povoamento do planeta marte. Nesta distinção do poder há os que mandam e os mandados. Os primeiros em menor número entretanto são capazes de destruir em segundos uma massa tectónica de placas , formado a mais de 6 bilhões de anos. “ Assim caminha a humanidade” e aí de nós pobres mortais, que habitam à base da pirâmide.
Preconceito é esta estratégia em premeditar através do olhar, frisando o comportamento, quem se ajusta ou não aos padrões desta sociedade eurocentrica, que ousou singrar os mares e invadir a casa dos “adormecidos em berço esplendido” que pisavam minas de diamantes e ouro e não faziam distinção com a palmeira ou a esplendorosa arara azul. É essa ingenuidade do amerindeo que se iguala a pureza das crianças.
Preconceito é isso: por intenções onde vale o viver. Assim, após a invasão e demarcação das terras o mundo passou a ser substantivo masculino por que Aristóteles classificou os seres vivos e muito depois com o advento da imprensa com Gutemberg, as gramáticas fizeram este favor em explicitar ainda mais os preconceitos. Lá, encontramos definições para tudo. Vide o que se classifica como branco e preto. Até as indefesas aves foram vítimas deste olhar deturpado. Urubus, corvos, porcos, aranhas, lagartixas, cobras, lagartos, etc são alvos perfeitos para aflorar preconceitos. Nos provérbios populares encontramos muitos. Exemplo de alguns deles: Negro, quando não suja na entrada, suja na saída; Fala mais que o negro do leite; Negro nasceu para ser espoleta de branco; Negro em pé é um toco, deitado é um porco; Quem nasceu pra dez réis, não chega a vintém; Quem nasce para cachorro, morre latindo; Rico ri atoa; Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto, etc.
Falando com alguém sobre o programa televisivo “Amor e sexo” apresentado por Fernanda Lima, que considero relevante quando traz à tona a diversidade, esta pessoa, concordou comigo divergindo apenas que a apresentadora deveria ser uma afrodescendente ou alguém bem mais próxima ao mundo dos temas abordados. Imediato disse, que a isso, chama-se “preconceito”. Quando se pensa desta maneira inconscientemente se está perpetuando os dogmas e tabus. A Fernanda Lima, exerce uma profissão e desenvolve com habilidade. Temos que aplaudir e respeitar e não acuar o outro por que não pertece àquela étnia ou gueto.
Inicie este texto para falar das lagartixas, as Hemidactylus mabouia ou lagartixa-doméstica-tropical, enquanto lavava o banheiro de casa. Lá estava uma delas, pequenina atrás do vaso sanitário. Quando joguei a água, saiu correndo, assustada.
Quantas vezes repudiamos a sua presença dentro de nossas casas?
Eu, que venho de uma geração que morou em casas com telhados de cerâmicas era comum vê-las passeando pelas paredes. A aspereza do ser humano com estes seres indefesos mais de grande importância para o equilibrio do ecossistema, fez com que desaparecessem por um período, passando a habitar o solo e na área externa das casas. Creio que muito contribuiu as pulverizações contra o mosquito da dengue por aqueles carros fumacê. Agora, vendo-as transitando em minha morada e reconhecendo a importância destas para a limpeza da casa, deixo-as transitar livremente. Principalmente agora com o surto da febre amarela.
Você sabia que estes animaizinhos, comem insetos, baratas, mosquitos, aranhas e pequenos escorpiões?
Exatamente. Vamos lapidar a nossa visão quanto às massas que se deslocam de um lado para outro diante de nós, voluntárias ou involuntariamente. Pois afinal entre a indefesa lagartixa que nos causa asco por sua aparência natural e a nossa, que nos permite apenas mirar no espelho, onde nos consideramos belos e formosos diante da pesada maquiagem que nos abastece, esquivamo-nos facilmente do tête-à-tête com medo da penetrabilidade dos olhos do outro, o nosso semelhante, que jocosamente nos diz nas entrelinhas do olhar, a verdade que guarda o espelho da madastra má da Branca de Neve e que evitamos escutar.

Valença, Bahia, 10 de março de 2017 Celeste Martinez

Imagens que falam


A neta Dindi






                                                                                  Eu, em atividade no Alacazum

Reiniciando atividades no blog

Desde o dia 29 de janeiro de 2017 quando do último programa radiofônico Alacazum palavras para entreter transmissão ao vivo pela emissora de rádio comunitária Rio Una FM 87,9 fiquei matutando o que fazer para não "perder o embalo" das atividades de pesquisa, já que não mais farei os programa de rádio e para mim é tedioso não "fazer nada".
Hoje, 10 de março de 2017, tive a ideia de manter este blog com minhas produções literárias. Forma de exercitar a escrita.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Professora Meg Heloise fala sobre o Alacazum palavras para entreter

Meg Heloise, Mestra em Estudos Literários - UEFS Universidade Estadual de Feira de Santana fala sobre a importância do Alacazum na 486° que foi ao ar por última vez na rádio comunitária Rio Una FM 87,9

486° edição do Alacazum na rádio comunitária Rio Una FM 87,9

Doutor Gilson Antunes e Mestra Meg Heloise

Convidados para a 486° edição exibida por última vez na rádio comunitária Rio Una FM 87,9

domingo, 11 de dezembro de 2016

Lembranças do mundo antigo de Carlos Drummond de Andrade

Celeste Martinez, ler: Lembranças do mundo antigo de Carlos Drummond de Andrade

Microrrelato sobre uma notícia de jornal de Myriam Rozenberg

Celeste Martinez ler: Microrrelato sobre uma notícia de jornal de Myriam Rozenberg

Show de agonia de Rosane Villela

Celeste Martinez ler: Show de agonia de Rosane Villela

O pombo enigmático de Paulo Mendes Campos

Celeste Martinez ler: O pombo enigmático de Paulo Mendes Campos

domingo, 27 de novembro de 2016

O guardador de rebanhos de Alberto Caeiro

Celeste Martinez faz leitura do texto de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa

domingo, 6 de novembro de 2016

Na 474° edição do Alacazum palavras para entreter

Celeste Martinez, apresentadora do Alacazum palavras para entreter, faz a leitura de um de seus poemas.

domingo, 23 de outubro de 2016

Cegueira promulgada de Mustafá Rosemberg

Celeste Martinez, faz a leitura do soneto: Cegueira promulgada do médico Mustafá Rosemberg

Texto de Ana Beatriz Almeida

Celeste Martinez, faz a leitura do texto de autoria de Ana Beatriz Almeida

A casa da rua do cais do porto de Amália Grimaldi

Celeste Martinez, faz a leitura da poesia : A casa da rua do cais do porto de Amália Grimaldi

Conto de Celeste Martinez

Celeste Martinez, faz leitura de um conto de sua autoria onde revive a memória de muitas pessoas que fizeram a história da cidade de Valença Bahia

domingo, 9 de outubro de 2016

Crônica: Primavera 2016 de Celeste Martinez

Celeste Martinez faz leitura de uma crônica de sua autoria. Primavera 2016 em Valença Bahia

domingo, 11 de setembro de 2016

Homenagem a professora Aleísa Magalhães

Celeste Martinez faz a leitura da crônica de sua autoria em homenagem a professora Aleísa Magalhães

11 de setembro de 2001

Hoje, 11 de setembro de 2016, na 467° edição do Alacazum, relembramos sobre o trágico 11 de setembro de 2001

I Sarau do Beco

O I Sarau do Beco, organizado pela escritora e locutora Celeste Martinez e pela professora Meg Heloise, serviu também para comemorar os 10 anos de existência do único programa cultural da cidade de Valença Ba Na foto, Celeste Martinez com lírios ofertados pela professora Aleísa Magalhães.

Lírios presenteados pela professora Aleísa Magalhães ao Alacazum pelos 10 anos

Celeste Martinez, apresentadora do Alacazum homenageada com lírios, pela professora Aleísa Magalhães pelos 10 anos de existência do programa na cidade de Valença Ba

Mary Luz fala da importância do Alacazum em sua vida

 No I Sarau do Beco, encontro com ouvintes-leitores do Alacazum. Mary Luz fala sobre a importância do programa em sua vida

domingo, 28 de agosto de 2016

Desafio musical: Cláudia Barroso

Na 465° edição do programa radiofônico Alacazum palavras para entreter deste domingo, 28 de agosto de 2016, apresentado pela escritora e locutora Celeste Martinez, no horário das 8 ás 9 h, transmissão ao vivo 87,9 Rio Una FM o desafio musical foi com a cantora brasileira Cláudia Barroso. Tocamos duas músicas: A vida é mesmo assim e Se Deus me ouvisse. Foram muitos os telefonemas a maioria das pessoas acertaram. Mais também foi confundida com a cantora Angêla Maria e Darlene.
Fonte da imagem: Google

domingo, 21 de agosto de 2016

Os ombros suportam o mundo de Carlos Drummond de Andrade


Desculpe-me os internautas pela ausência

Peço desculpas aos internautas frequentadores desta página pela ausência. Acomete-me tarefas por demais cansativa e quase nenhum tempo para o que eu mais amo fazer.