terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A Cristaleira da mãe da Ivonete de Macária Andrade

Na  336º edição do Alacazum palavras para entreter que foi ao ar no dia 19 de janeiro de 2014, das 8 às 9 h da manhã de domingo, transmissão ao vivo 87,9 Rio Uma FM, cujo tema: Literatura e Música na década de 1970, apreciamos a poesia: A cristaleira da mãe da Ivonete, autoria da professora Macária Andrade que havia falecido nesta semana.

A Cristaleira da mãe de Ivonete

Simpática, forte, começando a grisalhar, era assim a mãe de Ivonete, a dona da cristaleira. Chamava-se D. Onélia. Morava no começo do Pasto da Fonte; hoje, rua Sete de Setembro.
Não sei o que minha mãe foi fazer lá. Do que me recordo é que, passados os momentos das apresentações e timidez, Ivonete apareceu, trazendo quatro ou cinco companheiras, moradoras das proximidades. Todas, não passávamos de sete a nove anos de idade. Coincidentemente, cultivávamos os mesmos gostos, as mesmas inclinações: pintanças.Éramos lideradas pela filha da dona da casa.
Enquanto os adultos conversavam, começamos a trabalhar. Contamos estórias, jogamos baralho, brincamos de roda... Até aí, tudo bem! Acontece que o tédio foi tomando conta de todas nós. Muita monotonia para umas pirralhas com tanta energia acumulada e que já precisavam “ esquentar as turbinas”.
Foi então que um dos “anjinhos” ( sei lá se fui eu) sugeriu: - vamos brincar de “picula”. Aclamado por unanimidade, foi eleito o arcanjo-mor, que logo passou a ditar as regras do jogo. Por exemplo: estaria “piculado”, o Serafim que triscasse a cristaleira.
A brincadeira repetia-se, continuava... A gritaria também... Uma delícia! Um paraíso na terra.
No calor do corre-corre, do pega-pega pra não deixar “picular”, um dos anjinhos não triscou, empurrou a vidraceira, quero dizer, a cristaleira é que tombou, quebrando tudo que havia dentro, fora e sobre...
Foi um Deus-nos-acuda!... Eu não fui..., nem eu...., eu também, não... De repente, todo mundo escafedeu. Sabem pra quem sobrou? Claro! Pra mim, que não tive pra onde correr.
Tadinha da mamãe! Teve que assumir, sozinha, o prejuízo da cristaleira e de todos os “cristais”.
Fui dormir naquela noite com a bunda quente, por certo vermelha, pelas palmadas que levei ao chegarmos em casa. Acho até que, por essas e tantas outras a que já havia me acostumado, fiquei “ desbundada”, melhor dizendo, para não fugir ao significado correto da palavra, sou, em algumas oportunidades, desbundada.

Macária Andrade 

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