quarta-feira, 31 de maio de 2017

Crônica cotidiana de Celeste Martinez




Pintura da artista visual Amalia Grimaldi, 
tema da garrafa de sobrevivência que recebi hoje.


Por segunda vez, em homenagem a amiga, Amalia Grimaldi


Desta vez, eu ansiava uma segunda garrafa de sobrevivência. A primeira, chegou-me na transição de conjução dos astros ascendentes. Trouxe, junto com ela, uma chave. Guardo-a como amuleto para a grande viagem.
Por toda a madrugada, esperei firme no penhasco, olhando o horizonte, mas apenas ondas gigantes e revoltosas chocaram-se contra os rochedos. Poe, junto a mim, desejava Lenora – que se embrenhara na noite do Corvo -
Contrário, a mim, ele, Edgar, dormiu, alí mesmo, pousando o corpo esguio e frágil na mais pontiaguda pedra. Eu, recolhi-me ao quarto onde me esperavam notáveis espelhos.
Logo ao amanhecer, no instante em que Pessoa, terminou de “raspar as tintas com que pintaram os seus sentidos”; dirigir-me novamente ao rochedo. Desta vez, quem se agigantara era eu. As ondas, pareciam meninas, felizes, tranquilas, a brincar na praia, recolhendo brinquedos ofertados pelo mar: pedras, conchas, estrelas, gravetos.
O infinito, era só luz e meus olhos, atordoados de esperança, só enxergavam uma diminuta garrafa de sobrevivência que se aproximava ao ritmo das ondas como na sinfonia primavera, do padre ruivo.
Estava predestinada a mim, desde a última era glacial. Muito embora sem endereçamento. Não havia indício de quem era o remetente nem o destinatário. Qualquer pessoa, atenta aos sinais dos tempos, poderia se apossar dela. Entretanto o conteúdo da garrafa, a mensagem que estava dentro, revelava o leitor. Revelava o nome da pessoa que poderia decifrá-la. Aquela garrafa era para mim por que eu a esperava desde sempre.
Lembrei do elescaramujo de Myriam Rozemberg, com seu micro relato, onde o personagem Salvador, encontra uma garrafa e na ansia por saber seu conteúdo termina morrendo afogado. A mensagem que trazia a garrafa dizia apenas “agora conhecerás todos os segredos”. Ao recordar Myriam Rozemberg, lembrei também de Borges: “ a escrita metódica me distrai da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas. Conheço distritos em que os jovens se prosternam diante de livros e beijam com barbárie as páginas, mas não sabem decifra uma única letra.”
Esta garrafa, não precisou chocar-se contra as pedras. Veio em minha direção, agora que estou pousada os pés na praia. Abaixo-me para pegá-la. Era uma garrafa de cerâmica, com vários temas: tesoura, carta, pássaro, menina, formas geométricas, estrela, azul, verde, marrom. No gargalo, uma correntinha de prata, fininha, presa a tampa. Não fiz esforço para abri-la. Nesta hora, eu, sentada na praia, solitária. As ondas, foram descansar lá fora. O silêncio, é puro. Até o vento, parou para escutar.
Sim, por que, ao abrir a garrafa de sobrevivência e me apossar do pergaminho, para ler a mensagem naquela hora, como reza a lenda, eu teria que fazer a leitura em voz alta, como se estivesse no rádio a LA Cazum.
Escute.
Eis, a mensagem que trouxe-me a segunda garrafa de sobrevivência, proveniente do continente-ilha, que atravessou o índico até o atlântico onde me encontro.
Escute, mulher.
Escute, homem.
“ Querida e inesquecivel amiga Celeste Martinez, sao muitas as pedras dos caminhos, porem, somos cumplices e testemunhas dessa grandiosa dadiva do Universo, a energia que nos inspira, e que nos faz seguir adiante. Quando voce falou em viagem, lembrei-me desse texto que anteriormente havia escrito e assim me veio a cabeca:
“ Quando você partir, em direção a Ítaca, que sua jornada seja longa, repleta de aventuras, plena de conhecimento. Não temas Laestrigones e Ciclops nem o furioso Poseidon; você não irá encontrá-los durante o caminho, se o pensamento estiver elevado, se a emoção jamais abandonar seu corpo e seu espírito. Laestrigones e Ciclops, e o furioso Poseidon não estarão no seu caminho se você não carregá-los em sua alma. Se sua alma não os colocar diante de seus passos. (palvras do admiravel poeta egipcio Konstantinos Kavafis).
Espero que sua estrada seja longa. Que sejam muitas as manhãs de verão, que o prazer de ver os primeiros portos traga uma alegria nunca vista. Procure visitar os empórios da Fenícia, vá às cidades do Egito, aprenda com um povo que tem tanto a ensinar. Não perca Ítaca de vista, pois chegar lá é seu destino. Mas não apresse seus passos; é melhor que a jornada demore muitos anos e seu barco só ancore na ilha quando você já tiver enriquecido, com o que conheceu no caminho.
Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas, Ítaca já lhe deu uma bela viagem; sem Ítaca, você jamais teria partido. Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar. Se no final, você achar que Ítaca é pobre, não pense que ela lhe enganou. Porque você tornou-se um sábio, viveu uma vida intensa,e este é o significado de Ítaca.” Celeste, obrigada pelo belo texto. Grande abraco.

 Valença, Bahia 24 de maio de 2017 Celeste Martinez

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