segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A ONÇA E O BODE

Uma vez a onça quis fazer uma casa; foi a um lugar, roçou mato para ali fazer a sua casa. O bode, que também andava com vontade de fazer uma casa, foi procurar um lugar, e, chegando no que a onça tinha roçado, disse: "Bravo! que belo lugar para levantar a minha casa!" O bode cortou logo uma forquilhas e infincou naquele lugar, e foi-se embora. No dia seguinte a onça foi chegando, e vendo as forquilhas infincadas, disse: "Oh! quem me está ajudando?! Bravo, é Deus que está me ajudando!" Botou logo as travessas nas forquilhas, e a cumeeira, e foi-se. O bode, quando veio de novo, admirou-se e disse: "Oh! quem está me ajudando?! É Deus que está me protegendo" Botou logo os caibros na casa, e foi-se. Vindo a onça, ainda mais se espantou, e botou as ripas e os enchimentos e retirou-se. O bode veio, e envarou a casa e foi-se. A onça veio e encobriu. O bode veio e tapou. Assim foram, cada um por sua vez, e aprontaram a casa. Acabada ela, veio a onça, fez a sua cama, e meteu-se dentro. Logo depois chegou o bode, e, vendo a outra, disse: "Não, amiga, esta é minha, porque fui eu que infinquei as forquilhas, botei os caibros, envarei, e tapei" - "Não amigo, respondeu a onça, a casa é minha, porque fui eu que rocei o lugar, botei as travessas, a cumeeira, as ripas, os enchimentos, e o sapê".
Depois de alguma questão, a onça, que estava com vontade de comer o bode, disse: "Mas não haja briga, amigo bode, nós dois podemos ficar morando na casa". O bode aceitou, mas com muito medo. O bode armou a sua rede bem longe do jirau da onça. No outro dia a onça disse: "Amigo bode, quando você me ver frangir o couro da testa, eu estou com raiva, tome sentido!" - Eu, amigo onça, quando você ver balançar as minhas barbinhas ali nas goteiras e dar um espirro, você fuja, que eu não estou de caçoada". Depois a onça saiu, dizendo que ia buscar de comer. Lá, por longe de casa, pegou um grande bode, e para fazer medo ao seu companheiro, matou-o, e entrou com ele pela casa adentro. Atirou-o no chão e disse: " Está, amigo bode, esfole e trate para nós comer". O bode, quando viu aquilo, disse consigo: "Quando este, que era grande, você matou, quanto mais a mim!" No outro dia ele disse à onça: " Agora, amiga onça, quem vai buscar de coemr sou eu" E largou-se. Chegando longe, avistou uma onça bem grande e gorda, disfarçou e pôs-se a tirar cipós no mato. A onça veio chegando, e vendo aquilo, disse: "Amigo bode, para que tanto cipó?" - Fum! Para quê? O negócio é sério, trate de si... O mundo está para se acabar, e é com dilúvio..." - " O que está dizendo, amigo bode? - " É verdade; e você, se quiser escapar, venha se amarrar, que eu já me vou". A onça foi, e escolheu um pau bem alto e grosso, e pediu ao bode para que a amarrasse. O bode enlinhou-a perfeitamente, e, quando a viu bem segura, meteu-lhe o cacete como terra, até matá-la. Depois arrastou-a, chegou em casa, largou-a no chão, dizendo: "Está; se quiser, esfole e trante".
A onça ficou espantada e com medo. Ambos os dois temiam um ao outro.
Num dia o bode pôs-se junto das biqueiras, tomando fresco; olhou para a onça e ela estava com o couro da testa frangio. Ele teve receio e abalou as barbas, e largou um espirro. A onça pulou do mundéu e largou na carreira, o bode também abriu o pano. Ainda hoje correm cada um para o seu lado.

Sílvio Romero

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